Desabafos de Marvão

O convite de um amigo para desabafar na Rádio Portalegre, todas as quartas, às 7.30h, 10.30h, 13.30h, 17.30h, 23.30h, levou-me também a criar um espaço, na blogosfera, onde possam ficar registados os textos da versão radiofónica. Espero que gostem e já agora, se não for pedir muito, que vos dê que pensar. Um abraço...

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Localização: Marvão, Alentejo, Portugal

Um rapazinho de Marvão

terça-feira, novembro 28, 2006

9º Desabafo - 29.11.2006 - Fugir ou não fugir... eis a questão!


Tenho com o Benfica uma profunda relação de adoração que transcende todas as barreiras do lógico e do admissível. Grito, esperneio, sofro caladinho, exulto de alegria! Eu sei que é muitas vezes irracional, inexplicável, indecifrável mas é também uma ligação genuína e de entrega absoluta. Sendo nascido numa família de lagartos, apaixonei-me ainda em criança pelos caracóis negros do Chalana e do Humberto Coelho, pela farta peruca do Pietra e pelos bigodes do Veloso e do Bento, sempre irredutível, seguro e felino entre os postes. O doce bailado cerebral do Shéu… A graciosa agilidade do Néné no coração da área… Os petardos atómicos do Carlos Manuel… Nem que viva mil anos me esquecerei daquela noite de 18 de Março de 1981, em que pisei pela primeira vez o solo sagrado da Luz, a noite em que pude ver que os meus heróis eram mesmo de carne e osso como eu, correndo como loucos para derrotar por 1-0 o Fortuna Dusseldorf, na 2ª mão dos Quartos-de-Final da Taça dos Vencedores das Taças. Com o passar dos anos, a paixão cresceu, com a família que ganhei via casamento, com a malta da bola, com muito sofrimento e muita alegria à mistura.

Comovo-me cada vez que o amigo Januário, do alto dos seus oitenta e muitos, tira do bolso com emoção, a carteirinha de cabedal já escura do tempo, para me mostrar vezes sem conta o bilhete sagrado de 65 que testemunha a goleada em que espetámos 5 aos todo-poderosos de Madrid.

Ainda recentemente, na época passada e para a Liga dos Campeões, em excursões de carro cheio e muita ilusão, protagonizámos devotas romarias à Luz e Deus recompensou-nos dando-nos a graça de termos podido presenciar e viver noites mágicas que ficarão para sempre gravadas a fogo no lugar mais lindo dos nossos corações. Ver tropeçar os gigantes ingleses do Liverpool e cair tombados os milionários de Manchester, para honra e delírio de todos nós! Absolutamente memorável.

Sócio com as quotas em dia, se faz favor!, porque também quero ser parte deste sonho lindo, porque também quero ajudar com a minha parcela e sobretudo porque me dá um gozo enorme passear à volta do estádio, contemplar a relva e pensar que aquele tijolo, aquele metro quadrado de verde ou as meias que o Petit calçou no dérbi também são minhas! Acho que ninguém leva a mal a abstracção.

Mas esta relação de benfiquismo não é cega. Sou incapaz de dizer que jogam quando todos vêm que não jogam mesmo. Como sei que o Mantorras está arrumado, que o pequeno italiano tem lesões a mais, que o Gomes às vezes passeia em vez de jogar, e que este engenheiro comigo não passa mesmo no exame. Sei distinguir a verdade do embuste. Esforço-me por ser clarividente e esta conversa toda não tem como objectivo a pregação do Benfiquismo como ideologia suprema (bem podia!) mas sim porque serve de passadeira para o que quero hoje desabafar convosco.

É que o Veiga a mim nunca me enganou. Os fatinhos impecáveis, o sorriso malino, a poupa estucada em laca, o sotaque, meus amigos, o sotaque! Pois é! Até o Benfica enfia barretes! Se o homem é sócio e Presidente de uma Casa do Porto no estrangeiro. Pelo amor de Deus… o que é que ele anda ali a fazer?

Pois agora com a história do João Pinto ter ido para o Sporting veio tudo ao de cima e o que deu à costa é tudo menos bonito de se ver. Só em 3 anos, de 97 a 99, o senhor Veiga omitiu ao fisco proveitos na ordem 9 milhões de euros. O esquema até era bem simples e consistia na criação de empresas em paraísos fiscais para facturar as comissões de transferências de jogadores de futebol dos quais era agente. Com estas offshores desviava elegantemente os proveitos obtidos em solo luso para lugares tão exóticos como ilhas das Caraíbas, evitando assim a liquidação do imposto em Portugal.

A vivenda de 70 mil contos em Birre barbeada recentemente pelos funcionários judiciais era pertença de uma destas empresas offshores, sedidada nas ilhas virgens britânicas.

Valeu-nos uma administração fiscal cada vez mais atenta e até que enfim! bem dirigida que conseguiu apurar em auditoria quem era o cérebro destas operações malévolas de engenharia financeira que visavam a fuga grosseira aos impostos.

Graças à oportunidade da actuação podemos admirar a gravidade e extensão do chamemos-lhe furto: de 2002, 3,9 milhões de IRC; de 2000, 4,7 milhões de euros de IRS, e 1,4 milhões em IVA.

E o mais grave de tudo isto é que muita gente foi conivente com a situação e na ânsia de melhorar o plantel, calar as hostes e subir na tabela classificativa, “cá vai disto!”. Ou não me digam que os dirigentes dos três grandes que com ele negociaram não suspeitaram das contas do estrangeiro onde depositavam as comissões das transferências?

E chegamos ao cerne da questão, ao âmago do problema. Nos países nórdicos, nas sociedades mais evoluídas do mais evoluído dos continentes em termos de funcionamento social, quem foge ao fisco é ladrão e ponto final. Quem foge ao fisco rouba e o verbo é mesmo este e não outro. Roubar! Em Portugal, o portuguezito que dá a banhada às finanças é herói e gaba-se do feito frente aos amigos. Quem nunca assistiu, num desses balcões por aí espalhados e já depois de umas cargas etílicas, à triste dissertação de um desses infelizes, vociferando à boca cheia as mais inomináveis barbaridades sob os seus feitos de fuga aos impostos. Quem nunca ouviu o inenarrável: “quer com factura ou sem factura? É que com a factura ainda leva com o IVA?”.

Uns tristes que até há bem pouco tempo, passavam impunes. Mas com a crescente informatização dos sistemas da administração fiscal, com a adopção de processos de funcionamento mais céleres e eficientes, com as reformas do património e constantes adaptações, com a contínua formação dos novos quadros e o indispensável cruzamento de dados, muita coisa há-de mudar nos próximos anos. Para bem de todos nós, os pagantes.

Porque neste esquema todo quem se lixa é o mexilhão, e os trabalhadores por conta de outrém que ao fim do mês o recebem já com desconto, sabem do que estou a falar.

Porque a coisa, como dizem agora os Gift, é “fácil de entender”! As sociedades são como as pessoas. Imaginem agora que eu me juntava com 3 amigos e íamos viver juntos para um apartamento. Do dinheiro que ganhávamos fazíamos uma colecta da qual tirávamos apenas o estritamente necessário para pagar aquilo que era despesa de todos: o medicamento, a aula de formação, a diária do guarda, e havia de entre nós, um desses inteligentes que se escapava e deixava de meter a sua parte na terrina de loiça em cima do frigorífico que é de todos. O que é que acontecia? Das duas, uma: ou deixava de chegar para tudo, ou tínhamos de cortar nalguma coisa.

É imperioso que o português que contribui tenha a satisfação de pensar que é ele que faz mover este país, que é ele que paga a escola, a esquadra, o tribunal e o hospital. É ele que com o seu humilde e esforçado contributo, faz a engrenagem seguir em frente e continuar.

Mas também é imperioso que a captação de impostos e a fiscalização redireccionem as baterias em força para o trabalho independente, para o comércio e a empresa, para aqueles que têm margem de manobra e mais facilidade em criar esquemas paralelos. Essa deve ser a próxima grande batalha que se quer dura e eficiente. Pagando todos, libertamos aqueles que pagam agora, tantas vezes com tanto custo.

Em frente que como diz o povo, “quem não deve, nada terá a temer”.

quarta-feira, novembro 22, 2006

8º Desabafo – 22.11.2006 – Época de exames


Quem me dá o grato prazer de me ouvir perguntava-me há dias, “já falaste no País… quando é que voltas a Portalegre?”. A dúvida é pertinente e reveladora. Quem ouve faz parte do processo comunicacional. Se ouve é porque gosta de ouvir e é nessa medida que se acha no direito, e bem!, de influenciar sobre aquilo de que falo. Mas se me permitem, parece-me não ser essa a mais importante das questões. O mais importante não é saber sobre onde se fala mas sim sobre o que se fala. Até porque concordarão certamente comigo quando digo que a realidade da cidade e do distrito é muitas vezes parca em acontecimentos que valham realmente a pena pensar sobre. Assim como há inúmeros acontecimentos nacionais e internacionais cujas ondas de choque nos chegam a atingir, de uma maneira ou de outra, por tabela.

Sendo assim, o mais importante nestes desabafos, nestas crónicas de cidadãos que se presumem informados (como diz o jingle publicitário) é no meu modesto entender, o poder dar a visão, a visão sempre pessoal e de um modo muito particular, de tudo aquilo que acaba por marcar os nossos dias e a nossa vivência. No meu caso, será a visão de um beiranense, que é simultaneamente marvanense, lagóia, alentejano, português, europeu, e em última instância terráqueo. E porque a crónica é a mais íntima de todas as peças jornalísticas, aquela em que todos os outros estilos cabem, aquela onde nos podemos literalmente esticar, é aqui que partilho convosco, caros ouvintes, aquilo que me engasga ao pequeno-almoço, que fala comigo durante o dia e muitas vezes, se instala debaixo da almofada para não me deixar adormecer. Na ausência de oportunidade de definir logo de início o meu propósito nestes pouco mais de cinco minutos semanais em que fazem o favor de me aturar, manifesto neste editorial informal o meu verdadeiro objectivo: estando longe de vos pedir que concordem com o que digo, o que eu gostava mesmo é que os desabafos da quarta-feira servissem para acender o rastilho do pensamento em cada um de vós, seja ele qual for.

E como tem estado mesmo junto à boca do forno, eis assim que regresso ao tema da educação, nesta vez na perspectiva do professor.

Há muito que defendo que a sociedade que maltrata os seus professores, compromete seriamente o seu futuro, ao comprometer a vida das gerações vindouras. A classe docente representa um dos vectores da sociedade cujo desempenho depende em muito das condições em que exerce a sua actividade. Para falar depressa e bem, convêm que estejam contentinhos e preocupados em fazer apenas aquilo que devem: ensinar, e já agora, o melhor que podem. Convém que estejam motivados, bem pagos, que se sintam em casa, que a sua relação familiar seja estável, que não se estejam a divorciar, que o clube de que são adeptos ganhe em todas as provas onde entra e que não haja chicotadas psicológicas no balneário. Por favor!

Por mim falo. Eu sei que assim é! Sempre fui o gajo das letras. Matemática? Só a cacete! Recordo com aflição o fim das tardes de Verão em que a tortura maternal se esforçava, para meu bem, em me explicar as inúmeras propriedades da multiplicação ou as vantagens de fazer um conta de dividir à moda antiga. Provas dos nove? Raízes quadradas? Unidades de volume? De massa? De capacidade? Sistema métrico? Tabuadas? Horror! Um calvário, um caos tremendo, um suplício. Por favor não, e ela bem tentava, com laranjas e maçãs, levar o petiz à certa, mas ele era mais livros, textos e composições. Paciência! Cada um nasce pró que nasce. Mas eu juro por Deus que me esforçava. Pois essa minha relação, chamemos-lhe de esforço, com a matemática, havia de sucumbir definitivamente no segundo ano do ciclo com uma professora a quem a vida não lhe corria bem e à qual baptizámos, esteja ela onde estiver, de Farrusca, acho que pelo tipo de penteado exótico que ostentava a senhora. Como a vida estava má para ela e não estava para se chatear connosco, a dita cuja lembrou-se de nos ensinar as fracções mandando fazer cópias. Cópias? Sim, cópias das páginas inteiras dos livros, nas aulas e nas férias, deitando por terra a minha aspiração de alguma vez entender tal bizarra engenharia. “Os desenhos também se copiam?” perguntava eu, desajeitado. Risos. “Sim, copiar tudo!”. Percebem a relação? Professora descontente, aluno incompetente. As fracções? Haveriam de entrar já muito mais tarde, pela mão de um colega de finanças e a razão do imposto sucessório, à custa de muito gozo e de ouvir vezes sem fim a ladaínha: “onde é que já se viu, sair doutor da faculdade sem saber as fracções! Ah!”. E não! Não valia a pena explicar que o curso era de letras. É comer e calar!

Mas estes são tempos difíceis para os professores que se querem contentes… Quem esteja atento aos meios de comunicação reparará certamente que os casos são mais que muitos e todos eles dão panos para mangas.

Relatos da Universidade de Évora dão-nos conhecimento de uma história de honra à moda antiga. O romance começou em 2004, quando um docente da instituição reprovou um aluno do curso de Engenharia Geológica. Não achando piada nenhuma à avaliação final, o aluno só não fez logo a folha ao homem porque os colegas se interpuseram. Mas a coisa não ficou por ali. Chamadas telefónicas? Às dezenas numa noite, sempre de madrugada, como convém! Pressão a toda a linha, como nos filmes de espionagem, durante dois anos e meio para terminar há cerca de um mês ao melhor estilo marcial asiático com agressão pelas costas, derrube ao chão, arraial de murros e pontapés, num ensaio que deixou o pobre do docente em casa de baixa médica, em total parafuso mental, sem conseguir dormir uma noite tranquila. Pudera! Apesar da quarta-queixa crime, o aluno continua em funções, a terminar a licenciatura. Bem ao melhor estilo lusitano! O resto da estudantada vive clima de revolta e insegurança. O reitor justifica-se que não há nada a fazer. Apesar da legislação que rege as universidades prever a autonomia disciplinar destas intituições, nada pode ser feito enquanto não for criado um regime definido por lei, sob proposta do Conselho de Reitores. Pois esse Estatuto Disciplinar do Ensino Superior ainda está por legislar, apesar da proposta já ter sido apresentada e ter atravessado 3 governos. A única lei de que se podem valer é de 1932, um bocadinho desadequada, portanto. O comunicado interno refere que a lei não permite que a Universidade se constitua como queixosa, nem que actue disciplinarmente. “Nem nos exageros das praxes, se pode sancionar os malfeitores”, referiu o responsável máximo do estabelecimento. De mãozinhas e pézinhos atados. Não sou ninguém para dar conselhos, mas “ó setôr, vá lá dando uns dezitos porque senão a malta ainda se zanga e aí a coisa fica feia e sobra para si”.

No Liceu Maria Amália, em Lisboa, também foi durinho. O aluno entrou pela aula de história adentro de capacete na cabeça, agarrou a setôra por trás e apontou-lhe a pistola de alarme à cabeça, gritando “isto é um assalto!”. A brincadeira só foi desmascarada quando se ouviram os risos dos colegas vindos do corredor. A pobrezinha, de 54 anos, ainda agora deve de estar a tremer. E apesar da suspensão do aluno, geralmente pacato e normal que “só queria brincar com a professora”e da queixa apresentada na PSP, a verdade é que de costas para a entrada, há-de ser difícil voltar a leccionar.

Como diria a minha tia “fazia cá falta um Salazar, para ver se o respeito era outro”.

Que o respeito devia de ser outro, até concordo. Que a classe docente está debilitada. Não tenho dúvidas. Mas também me parece que esta perda de força também deve ser imputada aos próprios professores. Quem se quer respeitado, deve-se dar ao respeito.

Sigo com atenção a novela da proposta governamental da alteração ao Estatuto da Carreira Docente. Os professores na rua, em manifs, gritando slogans de protesto, promovendo abaixo-assinados recordistas e fazendo declarações de guerra à Ministra. A bruxa, a má, a velhaca. A culpada de todo o infortúnio. Convencidos que são donos de toda a razão, esquecem-se contudo que para a sociedade em geral que pouco pesca do assunto, aquilo que o governo defende nesta matéria faz, em muitos casos, todo o sentido. Senão vejamos,

- Ter de passar a fazer uma prova nacional de avaliação de conhecimentos e competências para aceder à carreira de docente? Porquê não? Se já se fazem em tantos outro serviços.
- Ter um período probatório de um ano? Parece-me perfeitamente razoável.
- Como me parece bem que em caso de inexistência de serviço lectivo no quadro de zona, possam vir a ser afectos a agrupamentos situados em zonas limítrofes.
- Como me parece completamente insensato serem contra o facto de se estar a criar a distinção entre professores de primeira e de segunda, quando todos nós sabemos que há de facto professores que se aplicam, que trabalham e se esforçam mais do que outros. A evolução segundo o critério unicamente temporal sempre valorizou a mediocridade. Não deve haver medo de ser julgado pelo nosso desempenho quando estamos conscientes do esforço que fazemos.
- Avaliação de desempenho anual, em vez de 4 em 4 anos?
- Permitir que os pais dos alunos, enquanto interessados e intervenientes no processo educativo possam dar a sua palavra em termos de análise de desempenho?
- Ter de solicitar autorização com cinco dias de antecedência para faltar, e entregar o plano de aula que permitirá a substituição e condução da aula por colega a designar?
- Ter dispensa para formação só na componente não lectiva do horário do docente, ou durante os períodos de interrupção da actividade lectiva?

Aos olhos dos comuns mortais, tudo medidas coerentes, duras mas justas e com uma notável coragem política. Porque em tempos difíceis, é preciso ajustar, racionalizar, redefinir. Em tempos de mudança é preciso saber-se adaptar. Seria bom se os docentes do nosso país soubessem responder a este desafio dos novos tempos com um resposta de qualidade e de inteligência que sei que está perfeitamente ao seu alcance. Com uma resposta de classe, de nível.

As gerações futuras agradeceriam.

quarta-feira, novembro 15, 2006

7º Desabafo – 14.11.2006 – A recompensa que ninguém queria receber


Faz neste mês precisamente quatro anos que o país acordou assustado para um escândalo sexual que haveria de abalar os alicerces da nossa sociedade e de deixar bem exposta a ferida sob as lacunas do nosso sistema judicial. Foi há quatro anos que um rapazinho destemido, encostadinho aos ecrãs das nossas casas, confessou de costas viradas e voz distorcida, aquilo que muitos suspeitavam e outros sabiam há muito: na Casa Pia de Lisboa havia lobos que sob a pele de cordeiros se alimentavam dos escombros de muitas infâncias infelizes.

Quebrou-se assim um segredo há muito conhecido mas sempre silenciado por misteriosas forças de bloqueio, pondo fim a uma infeliz tradição que desvirtuava por completo uma história plena de sentido.

Fundada no dia 3 de Julho de 1780, no reinado de D. Maria I, para dar resposta aos problemas sociais decorrentes do terramoto que devastou a cidade de Lisboa, recebendo crianças pobres, órfãs e abandonadas, a Casa Pia haveria de se transformar com recurso a audaciosos métodos pedagógicos, no primeiro estabelecimento de educação popular do País e na mais significativa instituição de assistência a menores.

Sendo hoje a maior instituição portuguesa dedicada ao acolhimento, educação, ensino e inserção social de crianças e jovens sem apoio familiar normal ou em risco de exclusão social, tem à sua responsabilidade cerca de 4700 educandos, distribuídos por dez Estabelecimentos e outros diversos equipamentos sociais.

Os estatutos gabam-na de ser uma escola global onde, a par do acolhimento e do sustento, se preparam os jovens para uma sã integração social cultivando a destreza das mãos, a inteligência, o desenvolvimento físico, a formação espiritual, moral e religiosa, os valores do trabalho e da solidariedade tanto quanto os da cultura, da ecologia ou do desporto. Respira-se orgulho ao se identificar como um estabelecimento que recebendo como matéria-prima crianças e jovens na maioria dos casos excluídos do sistema escolar normal conseguiu produzir através dos tempos, incontáveis personalidades que se distinguiram nos mais variados ramos do saber, das artes, da política, do desporto, da vida económica, social e cultural do País.

Há quatro anos haveríamos todos de saber que a vida é bem diferente do que se sonha no papel. Esse turbilhão informativo, essa avalanche de novidades que a todos deixou boquiabertos, haveria de levar consigo sob o manto da suspeita, apresentadores de televisão entradotes, médicos conceituados, humoristas consagrados e até eminentes políticos e embaixadores. Todos suspeitos mas todos isentos porque essa presunção de inocência até prova em contrário é um trunfo que vale por dois.

Todos nós sabíamos que esse apresentador de televisão até já tinha confessado em entrevistas que com o passar dos anos os seus apetites no que diz respeito a carne humana tinham mudado e que chegado perto dos quarenta, estava cada vez mais aberto a propostas ousadas no campo sexual; como todos nós sabíamos que esse médico de barba grisalha e ar introvertido, tinha currículo bem conhecido em rotas de perversão do bas-fond alfacinha. Todos inocentes mas esse verdadeiro humorista português há muito que insinuava que as suas orientações sexuais iam num sentido bem diferente daquele que a grande maioria dos portugueses tinha como pré-definido. Nada de apontar o dedo, mas sim, sim, o nosso embaixador há muito que era conhecido pelas autoridades por gostar de meninos e sobretudo por ser exímio em esgueirar-se das acusações e sair de cara lavada.

Porque um embaixador, meus amigos, não é propriamente o Zé da Esquina. Tal como o solo das embaixadas noutros países é considerado território nacional português, os embaixadores são também a cara do Estado e de todos nós quando em exercício das suas funções no exterior. Quero eu dizer com isto que não chega a embaixador quem quer, mas quem pode. Ou se preferirem de outra forma, é mais fácil apanhar um de nós do que a um embaixador.

Mas assim que a coisa estoirou, e bem à maneira de velha máfia siciliana, a pirâmide hierárquica ruiu, os chefes, os capos, a pesca grossa saltou da embarcação rumo a alto-mar e quem ficou preso nas redes foi um tal de Bibi, angariador-mor, pivot da organização, mestre de cerimónias e quando fazia falta, motorista também, aquele que levava os meninos a passear para o tal apartamento na linha ou para a quieta casa de Elvas (e tão perto que Elvas ficou então!). Na parte que me toca, a vergonha chegou cá!


Tido inicialmente como o mau da fita, escondido detrás da gola alta de um quispo vermelho, respondendo nervoso e de sorriso enigmático às perguntas da primeira repórter, haveria depois de contar a sua história, haveria depois de dizer que também ele tinha sido vítima do processo, que também ele fazia parte deste lamentável historial e nós passávamos assim a saber que os abusos sexuais não eram de agora, mas sim prática corrente de há muitas gerações.

Há muito que eram conhecidos os meninos da Casa Pia. Há muito se falava nessa infame tradição e nos brutais ritos de passagem a que eram sumetidos. Os relatos trémulos que encheram os nossos dias de então falavam de medo, de noites sozinhas no escuro dos lençóis à espera… de corpos nus tremendo de frio nos corredores intermináveis quando só o luar ousava entra pelas janelas altas, de gritos abafados nos chuveiros, de pedidos de ajuda que mais ninguém podia ouvir, de dias e meses e anos a sofrer em silêncio, sem uma mão amiga para os consolar.

Às vezes, parece que Deus está mesmo longe demais.

Esta semana, o Estado, esse Estado que somos todos nós, começou a pagar as indemnizações fixadas pelo Tribunal Arbitral em Abril último, assim que se confirmaram as provas do abuso sexual, para tentar compensar a sua negligência por não ter protegido quem tinha à sua guarda e cuidado. No total, foram atribuídas 44 indemnizações: 39 pelo valor máximo (50 mil euros), duas com 25 mil euros e três com quatro mil.

Pouco mais que nada.

Ao folhear a imprensa escrita, deparo estarrecido com a declaração de Catalina Pestana, actual Provedora, que do alto do seu ar de sargento reformado, disse com o maior dos desplantes que “procuro fazer como se eles fossem meus filhos e lhes tivesse saído um prémio no totoloto”. Eu sei que há dias infelizes, não duvido da boa vontade da senhora ao preocupar-se na forma como os jovens investem o dinheiro e na sensatez do seu desejo em que a compra de habitação própria deva ser uma preocupação para todos, mas também sei que há coisas que não se dizem.

Como há coisas que o dinheiro não paga.

Porque é impossível achar justo indemnizar esta meia centena quando há muitas outras centenas que hoje constituíram famílias, refizeram as suas vidas e hão-de levar consigo esse segredo para baixo de terra. Falam com ele todos os dias e há-de morrer com eles.

Para esses e todos os outros que foram infelizes protagonistas ou figurantes deste terrível romance, a recompensa ideal (e já que o tempo não volta para trás), nunca será pecuniária mas sim penal, se aqueles que lhe roubaram a alegria de viver apodrecessem numa cela qualquer, consumidos pela culpa, castigados por uma justiça atenta, isenta, mas dura e efectiva.

Seria assim num cenário ideal. Seria assim se vivêssemos no país com que todos sonhamos dia-a-dia. Mas como referi há pouco, aquilo que se quer quase nunca é o que se tem e ou muito eu me engano ou os anos hão-de passar, a memória há-de esquecer, a poeira há-de assentar, as indemnizações hão-de arder e pouco ou nada há-de mudar no meio desta história toda.

Já seria suficientemente bom e gratificante se a segurança e o cuidado dos responsáveis, deixassem no futuro, os meninos da Casa Pia terem direito àquilo que todos os meninos ambicionam: a oportunidade de se fazerem homens num ambiente de afecto, sem traumas e perseguições.

quarta-feira, novembro 08, 2006

6º Desabafo - 08.11.2006 - Tempos de Mudança




Vivemos claramente numa época de viragem. A sociedade portuguesa, tal como hoje a vemos, não é a mesma que durante épocas nos habituamos a olhar sob um prisma conservador, pejado de pressupostos e dogmas, certezas que não devíamos sequer ousar questionar. Bem sei que todas as gerações têm a tendência de se verem a si próprias como fracturantes e inovadoras, mas em relação aos tempos que correm, ainda alguém duvida que a tradição, como dizia o tal reclame, já não é mesmo o que era?

Senão vejamos,

Crescemos a ouvir dizer às mães “estuda filhinho… para seres alguém na vida, para chegares a doutor, para teres dinheiro e felicidade e poderes ter tudo o que queres. Para que os outros respeitem até o chão que tu pisas, para que sejas imitado e considerado, para que sirvas de modelo aos mais pequenos, para que as outras mães te invejem e as suas filhas te desejem. Para que sejas um homem. Para que sejas alguém. Não te preocupes com os sacrifícios que nós cá nos desenrascamos. Há pr’ali umas poupanças e se for preciso, para teu bem, nós até vãos de escadas varremos. Tu trabalha duro que nós cá estaremos.” Pois é, acreditava-se assim que o ensino era a estrada mais segura para o sucesso. Um curso superior era, para além de tudo o mais, o garante de emprego e de estatuto. Estudar muito para tirar um curso servia de passaporte para a estabilidade financeira e já agora emocional. Atrás disto viria tudo o resto. Mal feitas as contas, dos meninos que se fizeram homens assim, teríamos forçosamente que os separar em duas alas, os que estudaram para ser doutores e os que não. Desses que não estudaram, dois grupos emergiam: os que se safaram e os que ficaram a ver navios. Simples e óbvio!

Pois os tempos passaram e hoje não são apenas alguns mas sim a grande maioria que é literalmente empurrada pela porta das faculdades adentro, para serem doutores à força. Tem mesmo de ser porque a escola já não é a 4ª classe, isso do nono ano já lá vai, com o 12º não te safas e estuda mas é senão nem a doutor chegas. A Universidade deixou há muito de ser um espaço de descoberta e de experiência, uma terra de dúvidas e crescimento, para ser um domínio de certezas, para se tornar num upgrade dos liceus, uma liga dos semi-campeões onde se fazem mais 3 ou 4 aninhos para o canudo. A imagem cola: uma fábrica de canudos! E a grande maioria dos jovens universitários entram temerários e imberbes, ainda com o cordão umbilical por cortar, receosos mas depressa se ambientam. Começam as praxes, com um bocado de sorte arranham umas letras e entram na tuna, festas daqui e dali, Natal, ano novo e exames, o Carnaval, a Páscoa, a Primavera, as esplanadas, o prazer da vida boémia e eis que chegam as férias de Verão. Praia. Época de exames e tá-se bem. Os paizinhos patrocinam a roupa de marca, o portátil e os gadjets de última hora, telemóvel 3G topo de gama, o desportivo comercial que os autocarros estão fora de moda, quarto, cama e as férias com a namorada do último semestre. Ao fim dos 4, 5, 6, 7 anos, tocam as doze badaladas no relógio da torre, quebra-se o feitiço e cai o maçarico de cú num mercado de trabalho desertinho de o explorar até ao escalpe, sugando-lhe as ideias e a vivacidade em estágios intermináveis que o obrigam a saltar de patrão para patrão, à espera de um poiso mais fixo. Uns safam-se. Outros, infelizmente não e chegam mesmo, nas noites mais frias e sozinhas a pensar a mais elementar das questões: Será que valeu a pena?

Outro dos mitos-base da nossa sociedade que olha agora abismado para o seu fim, é a aura mística dos empregos do Estado. Como disse alguém bem meu conhecido, definindo depressa e bem, num exercício louvável de economia de palavras: ganha-se pouco mas também se faz nenhum e disso a malta gosta! O espectro salazarista que cobriu de negro quase todo o século vinte português, curiosamente ajudado pela aura naif pós-25 de Abril, ajudou a criar a ideia que o Estado era o paizinho da malta toda. Trabalhar para o Estado era estar seguro, era garantir uma evolução lentinha, cinzentinha, mas segura, com o que mais interessa a cair na conta bancária ou levantado em papel-moeda todos os santos dias do mês, sem atrasos nem reclamações. Trabalhar para o Estado era, desde que um gajo não se mexesse muito e se Deus ajudasse com a quota-parte da saúde, uma certeza até à reforma. Era fazer o que o Eusébio fez com o Benfica: um contrato para toda a vida. Bonito!

A verdade de hoje é que todos sabíamos que a coisa não estava bem. E antes que estivéssemos como na Argentina, a subir a Rua do Comércio ou descer o Atalaião batendo em tachos e panelas, a chorar os dinheiritos que bateram asa do banco, o rapaz Sócrates, Primeiro-Ministro de Portugal, não está com mais nem meias e chega-se à frente. Alvo a abater, escusado será dizer, classe média em geral, com os funcionários públicos e os trabalhadores por conta de outrem à frente da largada. Para os mais distraídos, o Programa de Reestruturação da Administração Central do Estado, PRACE para os amigos, apresentado há oito meses e agora mais conhecido em pormenor, diz que em vez de 518 organismos, os Ministérios passarão a ter apenas 257, um emagrecimento como agora lhe chamam, o que significa que 261 vão à viola. Encerrados, fundidos, reestruturados ou externalizados, chamem-lhe o que quiserem, traduzido em miúdos significa que 135 807 funcionários públicos estão prestes a acordar do sonho lindo que viveram para descobrirem que são supranumerários. Ser supranumerário é ser mais que o necessário, é não fazer tanta falta, é ser acessório. É estar a mais. E assim, dentro em breve, 41 mil do Ministério da Saúde, mais 27 mil da Segurança Social mais outros tantos mil de sabe-se lá de onde, vão passar em dois meses a perder 33% do salário base para depois, não fazendo falta onde estão, a outro lado irem parar.

Ninguém duvida que a coisa estava mal. É impossível não concordar que é ridículo só de pensar que 2 anos depois do fim do serviço militar obrigatório, ainda existe um Gabinete de Objecção de Consciência, onde 11 almas labutam arduamente todos os dias da semana, das 9 ao meio-dia e meia e das duas à cinco, para reencaminhar no serviço cívico quem já não há para reencaminhar?

A coisa estava mal, mal e todos concordamos. Mas há coisas, senhor 1º Ministro, que não se fazem e uma delas é mudar as regras do jogo depois deste começar. Se a coisa tinha de ser feita, que tinha, que ao menos fosse feita com visão, espaçada no tempo, dando margem para que alguns saíssem e que outros tivessem apoios para se poder mudar. Porque o que o senhor está a fazer aos funcionários públicos, é uma reedição da velha história em que o marido descobre no seu próprio leito conjugal, a felicidade da mulher com quem casou só que nos braços de outro e, tolhido pelo ciúme e pela desgraça, pega na caçadeira e convida o prevaricante a escolher um salto pela janela do nono andar ou o chumbo quente que está prestes a sair pelos canos sobrepostos. Não se faz! Não é por nada, mas não se faz! “Prontos!”, como se diz agora.

Os seus teóricos dizem que não é pelo excesso de pessoal, que não é pelos salários, que é a despesa inerente à função pública e à pala disso mudam-se sistemas de carreiras e reformas, vínculos, remunerações e regime de avaliação do desempenho.

Imagine-se o senhor um pai de família, contas de carro e casa para pagar, as prestações das últimas férias de Verão e da consola que no Natal passado fez as delícias do filho mais novo. Com um afilhado para casar e um sobrinho a caminho para presentear. Com a filha a dar o salto para o superior, em cima das contas óbvias: água, luz, tv cabo e gás. A contar ao cêntimo o que há-de cair no dia 20 e de repente… prateleira.

Prateleira! Encarando uma saída improvável, voltando a fazer as malas, quebrando um elo familiar para se instalar longe da mulher e filhos, a muitos quilómetros de distância. Isto para quem quer, porque a porta da rua está ali bem à vista.

Desculpe-me o desabafo mas não me parece justo. É que são muitos, sabe? E dá-me a sensação que convencido que está a fazer o que deve ser feito, é capaz de estar a rebelar contra si aqueles que o ajudaram a estar onde hoje está. Nestas coisas é preciso cuidado… A ver vamos.

quinta-feira, novembro 02, 2006

5º Desabafo – 31.10.2006 – Aborto


Vivemos num tempo em que a esquerda e a direita se confundem. Eu próprio já vivi na pele “regimes” caseiros de esquerda que vestidos sob a pele de cordeiro, de eternos defensores dos desfavorecidos, aplicavam a mais dura escola de opressão, tão característica dos regimes totalitários de direita. Serve o presente como intróito para uma questão bem actual. Porque se há característica que reconheço nos socialistas em geral e nos do meus país em concreto, é a persistência. Acho-lhes piada e sendo assim, ano e meio depois de ter assumido a maioria parlamentar e à terceira tentativa, o Partido Socialista conseguiu aprovar a proposta para a convocação de um referendo ao aborto, iniciando um processo que irá culminar com nova consulta aos portugueses, no início do ano que vem, e a apenas 8 anos da última investida.

E irá ser assim: “Concorda com a despenalização da interrupção voluntária da gravidez, se realizada por opção da mulher, nas primeiras dez semanas, em estabelecimento de saúde legalmente autorizado?”

Para já, para já, e tirando assim um primeiro comentário a talho de foice, não posso deixar de dizer o quanto me aborrece o facto de cada vez que se fala em tal assunto, parece que se esquecem que nós, homens, também existimos e temos cabeça entre as orelhas. Cá para mim, escusam de tirar as bandeiras e andar aos gritos pelas ruas que “a barriga é minha e eu faço com ela o que bem me apetecer”, como se fosse mais uma batalha pela emancipação e libertação das mulheres, porque esta questão, minhas amigas, é muito mais profunda, muito mais vasta e desculpem lá estragar-vos o arraial, mas é sobretudo uma questão de vida, de arquitectura ética e ideológica e aí, nós, os homens, também temos uma opinião a dar. Não é, em definitivo, uma história de mulheres, é um assunto de humanidades.

A meu ver, o aborto, tal como a eutanásia ou a pena de morte, são questões de tal maneira profundas que não pode haver uma só alma viva que consiga acreditar em absoluto na posição que defende, seja ela qual for. Creio que se houvesse assim um que fosse tão certo, ao ser confrontado com uma bateria de argumentos do lado contrário, iria tremer e hesitar, porque quando nós humanos nos armamos em deuses e pensamos decidir sobre a vida e a morte, seja para servir corporações, interesses ou a nossa própria visão, entramos num território que não é nosso e nos está vedado põe essa simples condição.

Mas acho graça a estes bailes mandados e vibro com o corrupio que se instala. Faz-me lembrar aqueles circos que visitavam antigamente as aldeias do interior, numa roulotte a cair de velha em que toda a família fazia de tudo, e só a meio do espectáculo associávamos as coisas e descobríamos defraudados que o trapezista era também o mágico e o cobrador de entradas. As coisas que um simples bigode não faz!

Brigam os políticos entre si, os comunistas e os “cêdê esses”, os do Sócrates que se riem e o Mendes que diz aos seus “vocês é que sabem”, brigam os defensores do sim e do não, e ainda falta a Igreja, o papa e o gajo do Sporting que vai ao meu lado no autocarro, os comentadores da televisão e a porteira do prédio que até tem uma prima que já foi a BADAJORGE, (assim mesmo) e resolveu a coisa! A coisa! Todos sabem, não pensam, sabem que têm razão. Ou será que não?

Do lado do Sim dizem que já chega de tanta mentira, de fechar os olhos e fingir que não vemos, que somos um sociedade evoluída, estamos no século XXI, e as mulheres, coitadinhas, nas mãos de bruxas em clínicas manhosas, a sofrer… e algumas a rebentarem com as entranhas numa latrina qualquer perdida no nada, pensando que com o desmancho anulavam uma falsa partida infeliz para uma vida que não querem. Não vêm que não podemos fingir que não existem, que toda a gente sabe que a Clínica dos Arcos rivaliza com o Corte Inglês pelo título de sítio mais “in” e português de Badajoz? Que as mulheres é que sabem, elas é que mandam e tu está calado e vê a bola e não te metas. Que tem que ser, que é tudo as limpas, esterilizado, asseado, discreto, pago com Multibanco.

Do Não, a Igreja Canónica, de bíblia na mão, a mesma que vê a SIDA galgar fronteiras e o mundo, subindo tresloucada África acima, invadindo a Europa e arrasando os Estados Unidos, e diz que não ao preservativo. As beatas com xailes por cima dos ombros e lenços na cabeça, e os jovens, de guitarras na mão e crucifixos de Taizé ao pescoço, a cantarem exaltados que a vida é que sim, é que sim. Vida sim e morte não!

Está um gajo nisto… Novembro é um tiro, o Natal agora com as campanhas começa em Setembro e quando damos por nós, temos, literalmente, o menino nas mãos.

Que fazer? A quem ouvir e Meu Deus, já agora… para onde é que eu vou? Para que lado é que caio ou para onde me viro?

Há 10 anos atrás, recém-licenciado, recém-regressado do exílio universitário de Lisboa, recém-entrado no mercado de trabalho, enfim, na condição de recém-tudo, com um namoro reincidente de 8 ou 9 anos no historial, também eu enfrentei a dúvida, olhos nos olhos. A minha então namorada e hoje mulher, engravidou. E é engraçado, porque como todos os jovens, também nós já tínhamos passado por sustos e hesitações, também nós já tínhamos comentado, em conversas informais de fim de tarde ou noite dentro, que faríamos se? Que seríamos nós capazes de fazer se? E houve um dia em que o se, se tornou verdade e eu, acabado de entrar na casa dos vinte, dou por mim lívido e periclitante, a ouvir estarrecido da boca do farmacêutico novato dos Assentos (era a farmácia onde ía menos gente conhecida, grau zero de suspeita!) que era positivo! Era o quê? O teste era positivo! Ela, encolhida, colada ao banco do carro, olhava para mim do outro lado da estrada através do vidro com um olhar de ferro e desespero, à espera de um esboço de felicidade meu que a tranquilizasse… mas ao ver a minha pressa, teve a confirmação que haveria de segundos depois de ouvir da minha boca. Choro! Eu já sabia!

Depois de passado o primeiro avanço do estado de choque e assolados por uma estranha tranquilidade que se apoderou de ambos vinda sabe-se lá de onde, acabamos por nessa mesma tarde por dar a conhecer o segredo à família inteira e só não dissemos a mais familiares pessoalmente porque os meus primos mais próximos estavam na Covilhã. Nunca desde o primeiro segundo, fomos capazes de vislumbrar outro caminho senão o da vida.

Pois essa vida que ambos começamos logo a amar com tanta força, quis Deus que não tivesse seguido todo o percurso até nós e voltou para onde tinha partido… para anos depois regressar sobre a forma de menina que os meus amigos que me ouvem já conhecem de outros desabafos.

O doloroso processo que se seguiu a esses dias foi por nós ultrapassado, juntos, com a férrea convicção do dever cumprido e de ter feito o que deveria ter sido feito. Sem sombra de arrependimento a pairar sobre nós.

Porque por muito mãe que seja uma mãe, bem cedo terá que compreender, se boa mãe for, que esse coração que às 5 semanas começa a ser formado, há-de dentro em breve bater por si próprio e já não lhe pertence a ela. Porque apesar de minúsculo, se só a natureza falar, há-de um dia sair para fora e seguir o seu caminho, que é o bem mais precioso que todos temos, o de podermos seguir a nossa própria vida como queremos, com todo o bem e todo o mal que nos espera pela frente.