Desabafos de Marvão

O convite de um amigo para desabafar na Rádio Portalegre, todas as quartas, às 7.30h, 10.30h, 13.30h, 17.30h, 23.30h, levou-me também a criar um espaço, na blogosfera, onde possam ficar registados os textos da versão radiofónica. Espero que gostem e já agora, se não for pedir muito, que vos dê que pensar. Um abraço...

A minha fotografia
Nome:
Localização: Marvão, Alentejo, Portugal

Um rapazinho de Marvão

terça-feira, janeiro 30, 2007

18º Desabafo – 31 de Janeiro de 2007 – A interrupção voluntária da felicidez


Pedindo a vossa paciência e implorando por misericordiosa compreensão, desculpem mas tem mesmo de ser e assim, uma vez mais… vão ter de levar com o aborto.

É que não dá! O pessoal está todo a ficar histérico com esta história e agora que se aproxima o dia D, é cerrar fileiras, entrar de carrinho e a varrer que “em tempo de guerra não se limpam armas”. De repente, parece que ficou tudo tontinho, os do gang do sim e os da turma do não, de bandeirinha e autocolante a varrer os mercados e vielas do Portugal mais que profundo, cada um vendendo os seus argumentos. Até as varinas do Bulhão andam desorientadas a pensar que as últimas eleições parece que foram ontem quando entra a turba ululante em plena alucinação colectiva. É uma encenação circense do mais alto gabarito. Ainda se queixa o Cardinalli que não encontra actuações de reconhecido mérito em solo luso e lá vai ele a caminho da China a buscar mais um comboio deles para o número do trapézio.

Bem dizia o outro que as paredes do Júlio de Matos são altas não para os que lá estão fugirem mas para os que estão cá fora não terem a tentação de entrar.

Pois eu, mais uma vez e já que me obrigam a ser chamado à pedra, tenho mesmo de dizer de minha justiça. Chamem-me retrógrado, tapado, machista, cabeçudo, ultrapassado, chamem-me Torquemada, chamem-me primitivo, regalem-se a baptizar-me com as mais inomináveis abjecções mas eu, nesse dia, voto um não consciente.

Aqui para nós que ninguém nos ouve, o menino Sócrates bem podia estar caladinho porque não lhe fica nada bem manchar a aura de isenção que ostenta na traseira da nuca com a declaração naquilo em que devemos votar. Até o Sampaio que tão confuso andou aqueles anos todos quando dormia em Belém, nos aparece agora mais que esclarecido porque, diz ele, “Portugal não pode ficar para trás”.

E a minha teimosia em não aceitar a liberalização do aborto até às 10 semanas prende-se com um único motivo: a vida desse feto que cresce lentamente na barriga da mãe não lhe pertence a ela, nem à mulher na sua condição, mas sim a ele próprio. Quero eu dizer com isto que se ninguém o impedir, se ninguém se armar em Deus e meter a faca onde a vida já por si brota, esse projecto de ser há-de passar disso mesmo e há-de ser gente de carne e osso. Defendo e acredito profundamente que essa vida que veio sabe-se lá de onde é autónoma e se há-de servir do casulo onde dorme então para passar a caminhar por si quando chegar a sua hora. Apesar de nunca ter sido fã dos Delfins, acabo nestes dias por lhes dar razão. Também eu acho que quando alguém nasce, nasce selvagem, no sentido em que em última instância não pertence a ninguém senão a si próprio e espero que não me mal interpretem nem procurem segundas intenções quando digo isto.

Nos dias que correm, com a informação e a multiplicidade de meios contraceptivos que existem, não faz sentido ter de recorrer a tão dramático corte da mais brutal das maneiras, pelo menos como prática corrente.

Depois vêm com a conversa dos que têm dinheiro vão a Badajoz e os pobres ficam a pé, que na Europa já se faz e eu quero cá saber da Europa e do que fazem os europeus se a conversa que tenho aqui é com a minha consciência e não com eles.

Dizem que se vai continuar a fazer, que vai continuar a haver…

Não digo que não, mas sim que essa é uma falsa questão. Porquê? Quando uma população partilha no mesmo território um sentimento de pertença e uma língua comum, quando uma nação atinge o Olimpo de poder ser um país, há um conjunto de leis que regulamentam o seu viver em sociedade, leis essas que podem ser mais ou menos permissivas, mais ou menos austeras, mais ou menos imutáveis. Pois eu penso que há muitas coisas que se praticam no meu país que podem continuar a acontecer mas lá por acontecerem não quer dizer que devam ser contempladas na lei.

Exemplos? Toda a gente sabe que há droga nas prisões. Se há consumo e doenças associadas à partilha de seringas, dizem os entendidos que devem haver kits descartáveis gratuitos para fornecer aos reclusos. Há quem concorde, certo? Pois eu discordo em absoluto e vão ter de me explicar como se eu fosse muito burro porque se uma prisão é um sistema fechado, alguém tem de meter a droga lá dentro para ela poder aparecer. Entretenham-se então a descobrir quem é que são os mafiosos que se andam a alimentar da conjuntura, fiscalizem os inputs, apliquem penas pesadas e deixem-se de lirismos porque o contrário é ser conivente com a maralha.

Também sou contra a liberalização das drogas duras apesar de muitos defenderem que com ela acabaria o tráfico, como sou contra a existência de salas de chuto assistido e contra a tributação desse tipo de rendimentos. Sim, porque o nosso Estado, espertalhão! prevê a cobrança de tributos até no caso dos obtidos a partir de fontes ilícitas, o que só lhe fica mal porque para além de ser só para inglês ver, ninguém está a imaginar as meninas do Intendente a irem a correr às Finanças para apresentar uma declaração de alterações porque superaram nessa tarde o limite do volume de negócios declarado para efeitos de IVA e IR, pois não?

Eu aqui sou um bocadinho mais pessoa de bem que o nosso mais que tudo e digo que se é ilícito que ilícito seja e continue. Às vezes temos de saber fechar os olhos para as zonas negras da nossa legalidade.

E tanto se me dá como se me deu que na Holanda se fumem ganzas e se cheire coca com a naturalidade com que cá se atam os atacadores dos sapatos. Não acho isso correcto. E o álcool? Bem, isso é outra história. Já dizia o Zé da Calçada que beber vinho era dar de comer a meio Portugal.

Pois voltando ao aborto, eu digo que não, embora tenha clara consciência que muito provavelmente o sim vencerá e elas hão-de abrir garrafinhas de champanhe e dar vivas. Às tantas, até uma ou outra caravana, não? Sim eu sei, a malta gosta é de festas.

Pois este vosso amigo diz-vos que não, que para mim pode continuar mas a lei não o deve contemplar pelo simples motivo que o feto que vai pelo esgoto abaixo ou incineradora dentro, nunca há-de correr à volta de um jardim, comer um gelado de limão à sombra de uma árvore no Verão, ver o mar ou ser gente como todos nós.

Pode parecer lírico, mas se um filho não vos dá jeito na altura, podem ao menos dar-lhe o direito a viver e entregá-lo para adopção depois. Ah, isso não! Nem pensar! É muito mais cómodo como querem agora: veste-se a bata, paga-se a nota e sai-se como se nunca tivesse sido nada. É um calo que saiu. Já está! E eu é que sou egoísta!

De tanta conversa louca que tenho captado nos últimos dias, deixo-vos com um relato que me parece de todo pertinente e o qual tive oportunidade de ouvir no programa “Prova Oral”, do grande Fernando Alvim, na Antena 3. A ouvinte ligava do Norte e deixou-me estarrecido com o seu testemunho. Há muitos anos, quando se iniciava no mercado de trabalho e aprendia a ser independente, um amor fortuito trocou-lhe as voltas da vida e as contas à menstruação, deixando-a grávida ao fim de pouco tempo. Sem ter o apoio certo de um companheiro e o calor do lar para a sustentar, sem ter certeza na certeza que carregava no ventre, sem um salário fixo, sem uma posição segura, terminar de uma vez com aquele pesadelo foi a única verdade que lhe toldou o pensamento. Andou a remoer, a ganhar coragem, a investigar o mercado clandestino e algures nesta demanda, algo a fez inverter a posição e sem saber como, quis fazer das tripas coração e proteger esse sentimento de pertença que nunca um dia pensou ter. Passou fome. Comeu o pão que o diabo amassou. Passou as “passas do Algarve” para levar a sua avante. A persistência e a teimosia que antes a fizeram exemplo de rebeldia, eram agora a força motriz que alimentava a vontade de levar o seu filho avante. Hoje, mais de 15 anos volvidos, ligou para a RDP para nos deixar a todos a sua versão. Hoje, dá Graças a um Deus que então não conhecia porque se na altura da sua indecisão o aborto fosse legal, não teria hesitado e esse teria sido o caminho. E se então tivesse desfeito o que não queria, nunca teria tido oportunidade de ver o seu filho com a alegria e o orgulho com que hoje o contempla. Antes adepta do sim, hoje fervorosa adepta do não, diz que sabe bem o que dizer no dia 11 de Fevereiro. E nem por isso será menos mulher e menos decidida que as outras.

É certo que as mulheres são livres e podem mandar nos seus corpos. Só peço é que sejam mais tolerantes, elas e não eu! e respeitem o corpo dos seus filhos e o considerem não como um apêndice, não como mais uma extensão egocêntrica de si mas sim como uma vida que merece tanto ser respeitada como a sua ou qualquer outra.

terça-feira, janeiro 23, 2007

17º Desabafo – 24 de Janeiro de 2007 – “Admirável Mundo Novo”

João Pedro Serra Sobreiro. Nascido a 09.01.2007

Há dez anos atrás, atravessei o Alentejo rumo ao reino dos Algarves, não para passar as férias de Verão como era hábito, mas para ali deixar o meu único irmão, acabadinho de entrar para gestão na Universidade local. Foi uma das viagens mais difíceis da minha vida, apesar da aparente alegria do jovem caloiro e restante família. Custou-me porque soube que ali acabava um ciclo e se iniciava um outro onde estaríamos inevitavelmente sempre mais afastados. Depois de vencer quilómetros e filas intermináveis para inscrições, rendi-me à fadiga e acabei por ali pernoitar num quarto recém alugado. Na duríssima manhã seguinte, fingi-me protegido pela carapaça de irmão mais velho que tem sempre de parecer seguro e destemido, embora tremesse por dentro por não saber o que haveria um dia de ser dele. Como seria a escola? Com quem iria andar? Com quem comeria? A quem se iria agarrar quando estivesse sozinho e doente? Quis-lhe pedir desculpa pela mal que lhe pudesse ter feito (acreditem que não deve ser nada fácil ter sido o meu irmão mais novo) e desejar-lhe a melhor sorte do mundo, mas da boca nada mais saiu que umas breves palavras de confiança. Nunca o disse a ninguém, mas até ao cruzamento de Ourique, os olhos mal viram a estrada de tão turvos de emoção e já muita saudade.

Lembram-se do desintegrador de moléculas da nave espacial da série de televisão “O caminho das Estrelas”, em que a tripulação se metia debaixo de um chuveirinho cósmico para desaparecer e voltar a ser matéria mesmo que fosse no mais recôndito cantinho do Universo? Quantas vezes me deitei a sonhar com uma e eu sempre quis ir para bem mais perto que eles. Paciência!

Mas o miúdo deu-se bem e hoje, contando apenas com a ajuda de Deus e dele próprio, conseguiu instalar-se no terrível mercado de trabalho, arranjar um cantinho, fazer amigos, ter os seu espaço e no último drible, fintar o casamento fazendo jus às modernices e decidir sem mais ser pai. 9 meses volvidos, estava a pobre parturiente a braços e pernas com o milagre mais lindo da vida, entre dores e suores e promessas que nunca mais a enganavam e nós de ouvido colado ao auscultador à espera da boa nova, a fazer lembrar os tempos idos da telefonia, quando o telemóvel deu sinal de mensagem. Mensagem multimédia! Uma fotografia. Abri. Envolto em cobertores e de olhitos encandeados pela luz, com minutos de vida e ainda quase a deitar fumo do calor do ventre materno, lá estava o João Sobreiro.

De boca aberta de espanto, dei por mim a pensar, que admirável mundo novo.

Quanto não valeu, naquele momento, ter tão precioso aparelho capaz de dar em segundos mais do que mil minutos de muita conversa ao telefone.

Realmente, este é um tempo fantástico para se viver e já por diversas vezes dei por mim a deitar contas a isto.

Quando fui estudar para Lisboa, em 92, computadores? Só de ouvido! Até na faculdade, era raro pôr-lhes a vista em cima. Ainda sou do tempo em que as pesquisas na Biblioteca Nacional se faziam em intermináveis gavetinhas cheias de papelitos com o resumo da obra e do autor. Caricato, não é? Hoje em dia, qualquer palerma tem um portátil debaixo do braço nem que seja só para impressionar.

Pois eu sou do tempo em que se escreviam cartas às namoradas que foram longas e às centenas. Cartas de papel, daquelas que se metiam num envelope com selo e tudo e se entregavam nos Correios. Cartas cheias de carinhos e beijinhos e promessas de amor eterno que custavam como o raio a escrever porque se tinha de fazer muita força na caneta para se deitar cá para fora tudo o que se sentia. Nos dias que correm, a malta nova é só de e-mail para cima e vão aos correios apenas quando querem recarregar o telemóvel ou ir buscar a encomenda da Redoute que mandaram vir via Internet. Falam uns com os outros num programa gratuito chamado Messenger, onde não se paga mais que nada e se pode estar um dia inteirinho a teclar com o nosso primo que anda na campanha da apanha do Kiwi no Sri Lanka, como se tivesse sentado aqui à nossa beira. Só não dá para jogar à bisca lambida mas isso já era pedir demais.

O planeta e a história mudaram com a chegada da Internet que continuo a considerar a maior invenção do homem pelas infindáveis capacidades que retém e ainda agora continuam por explorar. Tenho a certeza que diria que seria impossível se há dez anos atrás me dissessem que teria hoje a possibilidade de publicar um texto que em segundos pode ser visualizado em qualquer parte do mundo incluindo na Polinésia Francesa, através de um processo que me abre as portas de enciclopédias e dicionários e das maiores galerias e bibliotecas do mundo inteiro, que me permite saber quase tudo em tempo real, que tanto me ensina a fazer uma bomba artesanal como me lista de improviso o nome de todos os prémios Nobel da Paz, que me traz tudo o que são discos, livros, jornais, que me manda mensagens com vídeo e som e transforma o planeta nem sequer numa aldeia, mas numa vielazinha global.

É que eu sou do tempo em que não havia telemóveis! Aquele tempo em que quando queríamos saber de alguém e esse alguém não estava em casa ou no emprego, nos deixava loucos e a ligar para cabeleireiras ou cafés (consoante fosse feminino ou masculino) porque não havia maneira de saber onde se teria metido. Voltando às cachopas, nada de namoricos à distância debaixo dos lençóis. Se a queria ouvir tinha de esperar na fila do telefone e ouvir a conversa do da frente que ligou à mãe porque perdeu o último autocarro e depois fingir que tinha tosse e falar baixinho para que o que estivesse atrás não pudesse gozar o prato. Vá-se amolar! Se quiser namorar que arranje uma!

É que não consigo para de rir quando recordo as “bichas” infindáveis na praia junto às cabines telefónicas, quando meio mundo esperava atrás do outro para mandar beijinhos para casa. Parece uma cena do novo testamento! Já não se usa!

Naquele então, que não foi seguramente há mais de uma década, quando queríamos jogar num videojogo, íamos aos míticos “Convívios” do Senhor Artur Matos que de certeza seria eleito, se houvesse na altura um concurso desse género, como o Português mais importante de sempre para a malta nova. Qual Afonso Henriques, qual Fernando Pessoa, qual Marques do quê? O pai Artur, que ganhava dinheiro até a dormir é que a sabia toda! Hoje os putos não chateiam as mães para lhe dar uma moeda para meter na máquina de arcada. Hoje jogam em casa, na Playstation, com os paizinhos, a 10 contos cada jogo e toma lá que já almoçaste.

Lembram-se de só haver dois canais de televisão? Meu Deus do Céu! Como foi possível não morrer mais gente de tédio? E nós, que sempre recorríamos aos espanhóis que nos safavam a onça, só há pouco mais tempo é que pudemos receber a SIC e o então Canal dos Padres. Hoje, há estações para tudo e mais alguma coisa, do desporto à música, do sexo à historia e ainda um para a Igreja Maná. Onde irá dar tanta fartura?

Nas viagens do Expresso que demoravam 6 horas, 6! do Casal Ribeiro até Santo António, ouvia num pequeno leitor de cassetes portátil, as fitas que o meu amigo Sardinha me gravava na rádio da Benedita, com as últimas novidades e modéstia aparte, sentia-me muito à frente. Hoje? Usam uns leitores minúsculos de mp3 que guardam tantos discos como eu então nunca poderia carregar, nem que andasse com um dumper atrás. Minúsculos, tecnologicamente perfeitos, muitas deles guardam filmes e fotografias e mil e uma coisas mais. Por falar nisso, cds que eu também me lembro de ver nascer, tendo na perfeita memória o dia em que os vinis foram metidos num caixote de lixívia e assentaram bem no fundo da arrecadação.

E os filmes meus amigos, os filmes que nós exasperávamos por ver e tínhamos de fazer quilómetros e quilómetros de devoção cinematográfica. Hoje, graças aos dvds e à pirataria, experimentem ir a uma feira próxima e levem para casa os últimos candidatos aos Óscares por euro e meio. O fascínio da sétima arte no conforto do seu lar!

Quer nós queiramos quer não, nada é nem será como dantes e a vertigem e a velocidade são cada vez maiores. Na minha bola de cristal eu vejo que qualquer dia nos metem uma coleira ao pescoço que nos dará os valores dos diabetes e do colesterol, a tensão arterial e a esperança média de vida, apitando o hino da EX-URSS quando se bebe uma mini fresquinha a mais.

“É isso aí”, como dizem os brasileiros, o futuro mete-me medo mas eu gosto ainda mais de agora do que dantes.

Ontem, na Bica, passou por mim uma carrocita cheia de neo-hippies que vivem para aquelas bandas. São eles que se educam uns aos outros, fazem de médicos de clínica geral, de dentistas, de psicólogos e até de obstetras dando razão ao velho Rousseau que o bom selvagem é mesmo bom desde que queira. Estes, pelo menos, não fazem mal a ninguém.

Eu cá vou mais pelo Aristóteles e também acho que o homem é mesmo um animal social, que sem os seus pares definha e desaparece. E se esse animal social puder ter o último gadjet da tecnologia, o último gritinho da moda high-tech para lhe facilitar a vida, tanto melhor.

É que os sinais de fumo dos homens das cavernas não me iriam permitir ver o palminho de cara do meu novo afilhado tão bem como no ecrã cristalino de um telemóvel de última geração e isso é bom. É mesmo muito bom!

terça-feira, janeiro 16, 2007

16 º Desabafo – 17 de Janeiro de 2007 – “Na Taberna”


Eu sei que pode ser difícil de ouvir assim a seco mas garanto-vos que às vezes tenho vergonha do meu país. Às vezes, tenho vergonha de ser português e por tabela, acabo por ter vergonha de mim e da minha inércia também. Às vezes oiço e vejo coisas que quase me dão vontade de passar da palavra à luta armada. Neste caso, já por diversas vezes tinha ouvido o assunto de soslaio em conversas alheias mas como me parecia tudo tão mau e impossível, deixei-me ficar a ver se a onda passava e se o pior não se concretizava. Mas neste caso, acabou tristemente por se tornar realidade.

Na segunda-feira, as filmagens de um documentário de promoção a um evento cultural do Município de Marvão levaram-me ao Porto da Espada. Nessa manhã enevoada, passei pela Taberna local e em vez do sorriso de sempre, nada mais havia que uma porta fechada. A razão para tal encontrei-a metros acima quando me cruzei com a Dona Estrela, proprietária do espaço, que de olhos rasos me confirmou que nesses difíceis momentos que se seguiram a uma noite de angústia sem sono, decidiu fechar de vez a porta.

Disse-me que a legislação mudou muito, que agora aperta de maneira diferente e que não tinha como dar resposta. O espaço não permitia os aumentos regulamentares, as exigências eram mais que muitas e que não se podia arriscar aos valores das coimas. Os fiscais estão muito em cima e o dinheiro está contado. Os senhores da ATIVE aconselharam-na a não arriscar. Está muito em jogo e no futuro alguma coisa se haveria de arranjar.

Assim de repente, meio desarmado com a sinceridade angustiante, quis saber mais… o porquê assim e agora. “Sabe, já se falava disto há muito. O senhor que me aconselhou disse que há um ano que lutavam para que estas exigências não fossem assim para a frente, mas não havia nada a fazer. Há muitos interesses… muitos interesses.”

Contou-me que sim, que leu toda a legislação, “que agora não querem nada em madeira, nem os cabos das facas sequer. Tudo em inox! Chegou-se ao ridículo de numa outra casa próxima, terem obrigado o proprietário do estabelecimento a retirar as madeiras do sobrado e a colocar um placa quando o imóvel nem sequer lhe pertence. Quem é que paga essa despesa? Quantas refeições se têm de servir para pagar tal investimento?”.

“Querem um expositor diferenciado para os enchidos e o queijo; os pesos não podem ser de ferro, têm de ser de cobre, por sinal caríssimos; não pode haver comida própria confeccionada guardada no frigorífico, enfim, todas as imposições possíveis e imaginárias. Se lhes juntarmos os impostos, a segurança social e um tanto que ronda os duzentos contos anuais para uma fiscalização da higiene alimentar… andava a trabalhar para aquecer”.

“Eu que tinha a minha arca dividinha e limpinha, com carne e peixe separados, agora tenho de ter uma única para cada género de alimentos. A banha e a manteiga têm 5 dias para se gastar. Coloca-se uma etiqueta quando se abre e depois vai para o lixo se não se gasta. Já viu isto? Tem de se afixar na cozinha os ingredientes da comida e de se guardar uma amostra durante 3 dias, para análise. Até a casa de banho tem de ser limpa 3 vezes ao dia, com o horário fixo e tudo apontado para que todos vejam. Agora até para se limpar retretes se tem de saber ler e escrever. Qualquer dia temos de ter um curso superior!”

“Nunca eu pensei que um dia me fizessem um cerco tamanho que haveria de dar cabo da minha vida. Sabe o que eu acho? Que acabam com tudo, que rebentam com os mais pequenos para que só os grandes sobrevivam. Acho que temos o país a ir por água abaixo.”

“Não me consigo governar com o copo de vinho e o café. E assim vamos ficando sem nada. A minha mercearia era muitas vezes um apoio para a população. Agora quando precisarem de alguma coisa vão onde? A Portalegre? De camioneta da carreira a buscar o açúcar ou a manteiga?”

“Tive que me vir de lá embora. Não aguentava mais estar lá, a olhar para as coisas, a ouvir falar na rua e eu do lado de lá… com aquelas paredes a sufocarem-me.”

“Foi uma história de amor com 17 anos que acabou mal.”

O nosso conterrâneo José Carlos Malato teve a felicidade de pegar na frase do “fui feliz aqui”, “fui feliz ali” e entrou directamente para a ilustre galeria dos que inventam com as palavras coisas que todos queremos como se fossem nossas. Para quem não teve o privilégio de conhecer, a Taberna não era um espaço qualquer e como muitos outros, também eu tive a distinta honra de ter sido ali muito feliz. Feliz porque o Tonho Zé e a Dona Estrela recebiam os clientes não como tal mas como amigos sinceros mesmo que os conhecessem nesse dia, de braços sempre abertos e com um sorriso sincero de boas-vindas que não aparecia na conta final. Soberbamente decorada com tarecos de outros tempos, a Taberna impressionava logo à entrada pela sua tipicidade. O amplo balcão à antiga, as fotografias da povoação, a arca onde descansávamos, ou os calendários escolhidos a dedo, faziam um K.O. directo de afecto inicial que deixava o mais maduro de queixo caído perante tamanha envolvência. Depois era mergulhar por aquelas sinuosas galerias repletas de tremendo bom gosto e saber receber, com as colecções de chaves antigas, os candeeiros, os potes e despertadores de outros tempos que há muito deixaram de funcionar. Depois havia a televisão dos princípios dos 80, os pratos, a arca dos cereais, as cadeiras, tudo, tudo um mimo, um regalo de bom gosto.

Na Taberna perguntavam sempre se o comer estava bom quando repunham algo na mesa. Na Taberna, os jarros apareciam cheios sem que fosse preciso chamar o cicerone. Na Taberna riam-se connosco e eram felizes quando de lá nos viam sair felizes. Perdoem-me os outros tantos de quem eu sou também tão amigo, mas tenho de confessar que era na Taberna que eu me sentia mesmo em casa. A soberba feijoada de chocos com que me despedi sem saber, nunca mais ninguém me tira.

Disse-lhe que pensasse positivo. Que há males que vêm por bem. Que quando Deus fecha uma porta, abre sempre a tal janela e gastei ali as minhas frases feitas de reconforto. Pedi-lhe que repensasse. Que não desmembrasse a casa. Que empregos de cozinheira há em muitos lados e oportunidade não lhe há-de faltar. Mas pedi-lhe mais uma vez que reconsiderasse. Que pensasse em montar a tenda noutro lado, que respeitasse as condicionantes, que era possível ainda assim, com uma sala maior, conseguir suportar tudo.

Ela respondeu-me que em última instância há sempre Espanha ali tão próxima, “para onde marcharam já alguns colegas e onde primeiro está a economia e o bem-estar das pessoas e só depois vêm as leis que só servem para os servir. É por isso que eles evoluem e nós não passamos da cepa torta.”

Compreendo que é necessário haver normas e disciplina. Percebo que há normativos comunitários a cumprir. Sei que a legislação é cada vez mais criteriosa. Mas nem tanto ao mar, nem tanto à terra. Vejam bem ao estado em que chegámos no nosso país que as casas não são fechadas mas fecham só com o medo das coimas. Com tanto rigor, com o sermos tão certinhos, matamos a nossa cultura, as nossas tradições e a forma de vida que nos torna tão diferentes de todos os outros.

Imaginem bem o que seria se tivéssemos a força suficiente para bater o pé e dizer que não. Imaginem o que seria do nosso concelho se criássemos um Parque Temático que recuperasse todas as tradições que o mundo moderno exterminou, com a oportunidade de visitarmos e assistirmos ao modo de produção de um matadouro tradicional, de um moinho de azenha, de uma adega típica, de um lagar tradicional. Imaginem as excursões de estrangeiros e de meninos da cidade a fazerem centenas de quilómetros para verem as entranhas de um porco e conhecerem o seu próprio como nenhuma aula de biologia o pode fazer, a provar os enchidos, o pão, o azeite e o vinho no local mais apropriado. Quando um dia o pensarmos de facto, nada mais haverá a fazer.

Qualquer dia, logo após o nascimento, colocam-nos um código de barras na testa e metem-nos numa prateleira qualquer e nós, caladinhos, herméticos e selados. Standartizados e globalizados. Estupidificados e submissos.

À Dona Estrela e ao Tonho Zé, um abraço do tamanho do mundo, como aquele que quase demos meio a tremer na segunda-feira. Eu tenho esperança e não há-de faltar muito para que possamos erguer as taças do tal tinto para brindarmos sobre um pato com castanhas como só vocês sabem fazer. Havemos de voltar a ser felizes juntos nem que no final vos tenha que dizer um “gracias” orgulhoso em vem de um “obrigado” envergonhado.

quarta-feira, janeiro 10, 2007

15º Desabafo – 10 de Janeiro de 2006 – “O triunfo dos porcos”


De olhos mortiços e incrédulos para as câmaras e para o mundo, imbuídos de uma estranha imunidade que os paralisa por dentro perante tamanho frenesim mediático, os trabalhadores da Yazaki Saltano, parecem já não ter força para trilhar o caminho que lhes surgiu agora inesperadamente por andar. Têm na boca o gosto amargo desta história que parece sempre acontecer aos outros mas que em má hora lhes tocou agora a eles. A empresa japonesa com nome de herói de banda desenhada de terceira linha, já sugou o que tinha a sugar, já explorou o que tinha a explorar, já ganhou tudo aquilo que havia para ganhar. Com a desculpa esfarrapada da descontinuidade da produção de cablagens para o Toyota Corolla, com a airosa graciosidade de um Zé dos Telhados, canta como ninguém a canção do bandido que deixa Ovar e o Governo a sonhar com um prolongamento que nunca há-de existir, pois o jogo está mais que perdido nos 90 minutos regulamentares. Depois de mamarem mais de 1 milhão e meio de euros em programas de investimento público e de terem recebido os terrenos para a localização das infra-estruturas de mão beijada, despedem-se agora com a traição de Judas, expressa em indemnizações acima da lei, aceites por não haver mais por onde fugir.

De baterias apontadas para a Turquia ou Eslováquia, onde o preço do trabalho das mãos dos homens se paga com bem menos valor que por cá, prepara-se agora para embalar os tansos que se seguem, as próximas vítimas do embuste que engenhosamente engendrou.

Em Portugal, por terra, ficam os homens encostados às grades e portões, amparados pelas vedações, fumando filas ininterruptas de cigarros sofregamente cilindrados até ao fim. Por cá, ficam as mulheres de bata, de mãos nos bolsos, reunidas em pequenos círculos informais à procura do aconchego umas das outras, de volta das fogueiras que lhes hão-de aquecer os corpos mas não as almas, noite dentro, até ao vazio da manhã seguinte. De ar perdido, à espera da razão que sabem que não há-de chegar. São mais de 500 ao todo. 500 são 14 autocarros cheínhos de gente que a 24 de Janeiro acordará de manhã sem ter para onde ir e que fazer, sem ter onde ganhar aquilo que necessita para viver. Serão 500 vezes 4, vezes os filhos e os familiares que irão inevitavelmente ser arrastados pelas ondas de choque deste terrível epicentro que os há-de marcar para sempre.
Infelizmente, nós cá em baixo, pelo Alentejo, já ouvimos esta história que de tanta vez nos ter invadido a casa pelos telejornais a dentro, parece ser sempre a mesma, parece ser a que já sabemos de cor e salteado.

O primo Basílio Horta que se cansou de ser eterno candidato a Presidente da República e agora se contentou com o belo tacho de Presidente para a Agência Portuguesa para o Desenvolvimento, diz que não, que não havia mais nada a fazer e arremata o ponto constatando há uma grande disparidade de preços entre a mão-de-obra nacional e a oferta do leste. Bem haja pela acutilância, mais sinceramente não era preciso dizer tanto, isso já nós sabíamos há muito. O nosso Manuel Pinho, confuso dono da pasta da economia, também sabe nestas ocasiões colocar o semblante de preocupação que convêm nestas alturas de pêsames. Diz que vai tentar, que vai negociar, que tudo irá fazer para evitar o pior quando o pior há muito já bate à porta.

Meus amigos: Portugal no seu melhor! Ouçam bem o que vos digo: ou abrimos depressa a pestana, ou o papão que dorme aqui ao lado, de 504 mil quilómetros quadrados e mais de 44 milhões de habitantes, não só nos vai comer, como lhe vamos suplicar de joelhos que nos devore de uma assentada só, para que sintamos menos a dor da degustação.

A solução para este quebra-cabeças indecifrável, só pode estar no sorriso do Sr. Hermínio Mira, que eu em boa hora conheci nas páginas do jornal, bem aventurado proprietário da criação de porcos alentejanos de raça certificada e da fábrica Pata Negra, em Campo Maior. Este simpático senhor que certamente já passou a barreira dos 60 mas se diz sentir com menos de vinte e nos sorri na fotografia, em plena produção com um dos seus exemplares ao colo, é dono de uma empresa de capital 100% português que transforma por ano 6 mil porcos que dão origem a 600 toneladas de produto, com destaque para os afamados presuntos que são exportados até para a china, onde são considerados uma iguaria ao nível do caviar. Nesta história de sucesso, 60% das vendas vão direitinhas para Espanha, mas há também Inglaterra, Alemanha e estuda-se já a possibilidade da França, do Brasil e dos próprios Estados Unidos. Para 2007, quer aumentar 50% a produção, prevendo que a sua capacidade possa mesmo vir a triplicar! Não vislumbrando qualquer apoio estatal ou mesmo do sector bancário português, perspectiva já na sua ânsia de expansão, aliar-se a interesse estrangeiros, por ser a única forma de levar a sua avante que o que tem de ser tem muita força.
Empreendedor e decidido, confiante até à medula, o amanhã deste homem está bem longe do descrédito dos trabalhadores da Miazaki.

O segredo é simples e claro de se ver. Bem dizia o outro que chapéus há muitos. Cabos também, digo eu! Até na Papua Nova Guiné ou em plena Gronelândia se podem fabricar uns iguaizinhos aos dos nipónicos de Ovar. Mas porcos, meus amigos, daqueles bem escurinhos e bem alentejanos, que só comem a bolota que cai da árvore e lhe dá o característico sabor, aqueles que nem querem ouvir falar de rações ou farinhas, aqueles que têm livro genealógico e são certificados por entidades autónomas, aqueles que demoram ano e meio a atingir o apogeu, só neste cantinho da península ibérica porque são muito nossos e estão bem aqui ao lado.

Nestas duas faces da mesma realidade, uma certeza deve nortear o futuro que todos queremos: só apostando no que nos distingue de tudo o resto, nos podemos afirmar com segurança de quem tem terreno firme para prosseguir em frente.

terça-feira, janeiro 02, 2007

14º Desabafo – 3 de Janeiro de 2007 – “Os novos ícones da Portugalidade


Entrados em peão no ano novo, é agora altura de olharmos cá debaixo para esses 365 degraus que teremos de subir passo a passo, com renovada esperança e a vontade comum de podermos chegar ao final vivos e de saúde, felizes e a mexer. Na passagem do ano, que no fundo é apenas mais uma noite, mais uma boa desculpa para a folia, fazemos como as cobras e deitamos fora a pele antiga para deixarmos reluzir uma novinha.

No ano novo somos pessoas que queremos ser diferentes que o 2006 já cheira a mofo no fundo do armário, aconchegadinho entre as bolas de naftalina. Seja deslumbrados como o maravilhoso fogo despesista da Madeira (que em apenas 8 minutos abrasou um milhão de moedinhas amarelas de euro!), de smoking no Casino Estoril, na praia de Carcavelos ou nas ruas e praças do nosso país, todos olhamos para 2007 como uma nova oportunidade que temos de agarrar com unhas e dentes. Que assim seja de facto!

Para este novo ano, eu proponho uma revisão daqueles que me parecem ser os novos ícones da portugalidade.

Durante muitos, muitos anos, décadas até, quando Portugal olhava para o nosso Olimpo lusitano, para aqueles que eram os portugueses modelo, os semi-deuses da nação, os exemplos puros da ariana lusa, brilhavam refulgentes, de braço dado e a sorrir, Amália e Eusébio. Se ao Fado e ao Futebol somássemos Fátima, teríamos a sagrada trilogia dos efes que o avozinho Salazar nos deixou de herança. Bastava a envolvência da música, o fascínio do futebol e a fé insuplantável para manter os coraçõezinhos a bater de felicidade. Se nem só de pão vive o homem, com esta receita mirabolante, qualquer um ficava de barriga cheia mesmo se de estômago vazio.

Amália e Eusébio eram talentos natos e não pessoas como as demais. Deus deu-lhes a graça eterna que os tornou maiores que a vida e imunes à morte porque serão sempre recordados com emoção pelos vivos.

O menino nascido há 64 anos na então Lourenço Marques que bem cedo percebeu ter algo dentro dele que os distinguia dos outros, deixou-nos um legado que nem a maior enciclopédia do futebol jamais escrita poderia ensinar a quem de cor a soubesse, por ser impossível explicar de onde brotava a magia que os seus pés descalços desenhavam na terra batida, com uma bola de trapos a dançar por companhia.

Também a fadista cujo corpo descansa agora entre os mais ilustres dos ilustres filhos de Viriato, nasceu com essa dádiva dos céus de poder um dia carregar todo um país, toda uma nação, todo um sentir na sua voz. Amália não se explica nem sequer se ouve. Amália sente-se porque ouvir Amália é saber o que é ser português.

Amália e Eusébio permanecem assim intocáveis e inatingíveis, como que congelados numa imunidade divina que os conservará para todo o sempre.

Ao contrário dos seus antecessores, os novos ícones da Portugalidade não nasceram heróis, fizeram-se heróis; não se limitaram a desenvolver o legado genético que traziam consigo no momento em que caíram da azinheira, tiveram de o criar, de o aprender, de trabalhar para o conseguir.

Apesar de ser filho de pai treinador, José Mourinho nunca deu uma para a caixa numa tentativa mais que frustrada de singrar como jogador em clubes menores. Quando o seguiu pelo seu périplo de Portalegre (cidade que diz guardar com grata emoção), já tinha percebido que não era a praticar mas a organizar e a gerir que haveria de ser grande, contradizendo a velha máxima que só grande jogador pode dar grande treinador. Mourinho não nasceu “the special one” como hoje é conhecido em terras de sua majestade mas soube, desde os seus tempos de tradutor de Robson no Sporting, que com muita dedicação haveria de chegar longe como chegou. Em Alvalade, nas Antas e em Barcelona, Mourinho aprendeu a cartilha inglesa e o que de melhor tem o futebol britânico para dar e foi em terras da Catalunha que acabou a graduação com o sumo da táctica da laranja mecânica, herdada via Cruyff, pela mão de Van Gaal. Sintetizando as duas escolas com a rodagem espertalhona adquirida Portugal fora detrás do pai, Mourinho conseguiu a fórmula mágica que o conduziu ao mais desejado trono do desporto-rei europeu e mundial, arrasando de rajada duas Premier League do mais fantástico e vibrante soccer mundial, deixando boquiabertos os seus detractores. Frontal, brigão, decidido, arrogante e convencido do seu poder, Mourinho é um caso de estudo em todo o mundo pela forma brilhante como motiva, organiza e protege os seus homens, pela maneira como encanta o mundo dos amantes da bola. Contrariando a mentalidade pequenina portuguesinha que não se afirma por ter medo da inveja alheia, Mourinho é um autêntico panzer desgovernado que destrói todo e qualquer obstáculo com uma auto-estima à prova de bala. Mourinho é bom, sabe que é bom e não teme nada nem ninguém ao afirmá-lo convictamente mesmo quando reconhece que até para o fim está preparado. Confesso que não simpatizei com ele de início, que quase lhe fiquei alérgico depois do episódio da traição de Leiria, mas hoje dou o braço a torcer perante um líder que já é uma referência pessoal.

Também Sócrates não nasceu para ser Primeiro-Ministro de Portugal. Não tendo claramente a aura, o carisma, o chama de um Sá Carneiro, de um Soares, de um Cunhal, não sendo um predestinado para a política, conseguiu às suas custas, com muito trabalho, preserverança e espírito combativo, chegar a ser o número um do Governo Português. Nem o mais certeiro analista político vaticinaria que o rapazinho da província que há dez anos era apenas Secretário de Estado Adjunto do Ministro do Ambiente haveria de chegar ao topo, deixando para trás os delfins do Largo do Rato que há muito esperavam que a descendência dinástica lhe fizesse cair no colo o ceptro do poder. Quem não se recorda das míticas ensaboadelas dadas por Santana Lopes quando a RTP foi mais longe que o Zandinga sem saber, ao sentar na mesa de comentadores do Telejornal de fim-de-semana, os dois futuros PM’s de Portugal? Enquanto Santana espalhava charme e clarividência, dizia o que queria com uma pinta que o fazia estar certo mesmo quando estava errado, Sócrates pestanejava, falava com ar ralhão, de olhos esbugalhados e raramente chegava onde queria. Uma coisa é dizer, outra é fazer! Santana foi o triste flop que todos sabemos. Sócrates, apesar das greves e das críticas, escolheu um caminho e corta a direito, não cedendo nem vacilando. O engenheiro criou uma máquina de marketing, não dá passo sem ter a certeza da firmeza do solo e a pouco e pouco vai construindo uma imagem de solidez que faz falta quer nós queiramos, quer não. Bebeu o melhor do padrinho Guterres, o melhor de Soares e criou um modelo ainda em fase de aperfeiçoamento. Certo, sereno, sem fazer concessões seja a quem for que apanha pela frente sejam professores, funcionários públicos ou o próprio Alberto João, príncipe das Madeiras, Sócrates governa o país e o partido com uma mão de ferro que pode ser discutível, é certo, mas é necessária.

(Uma nota para o meu partido: às vezes a melhor oposição, é saber esperar!).

Mourinho e Sócrates não nasceram grandes. Trabalharam e aprenderam para o serem.

A sua lição poder ser um estímulo e um incentivo para todos aqueles que queiram extrair das suas curtas mas profícuas histórias de vida, o melhor que têm para dar. Porque se olhando para o Pantera Negra ou para a Rainha do Fado, ninguém aprendia a marcar penáltis ou a trinar, admirando os novos ícones da Portugalidade, teremos todos a certeza que com esforço e abnegação, qualquer um de nós pode chegar mais alto e ascender onde nunca esperou estar um dia.