Desabafos de Marvão

O convite de um amigo para desabafar na Rádio Portalegre, todas as quartas, às 7.30h, 10.30h, 13.30h, 17.30h, 23.30h, levou-me também a criar um espaço, na blogosfera, onde possam ficar registados os textos da versão radiofónica. Espero que gostem e já agora, se não for pedir muito, que vos dê que pensar. Um abraço...

A minha fotografia
Nome:
Localização: Marvão, Alentejo, Portugal

Um rapazinho de Marvão

terça-feira, fevereiro 27, 2007

22º Desabafo – 27 de Fevereiro de 2006 – “Razões para ser folião”

As Meninas do Gás: Cris, Hernâni, Ramos, Bonito, Sobreiro, Coelho, Pousadas, Anselmo e Cláudia

O enterro do carrapau: Barradas, Coelho, Sobreiro, Ferreira, Ramos, Jesus

Ainda a propósito do Carnaval. Confesso que não sou, nem nunca fui grande folião. Esta coisa da malta andar mascarada no meio da rua aos pulos e aos gritos, armados em matrafonas, no alto de reboques, a vociferar e atirar fruta podre e caramelos, a rebentar estalinhos e bombas de mau-cheiro, soava-me a coisa de refundidos. Eu que sou naturalmente uma pessoa extrovertida e Graças a Deus bem disposta, que nunca digo não a uma boa brincadeira, que gosto naturalmente de rir e que defendo afincadamente que fazer rir alguém, ver alguém feliz, fazer alguém feliz é a coisa mais fantástica do mundo, não era grande apreciador do Carnaval.

A memória aqui falha-me e a compreensão era na idade muito pouca, mas das primeiras vezes que me meteram nestas andanças ainda praticamente não tinha conhecimento. Reconheci-me na fotografia amarelada pelo tempo, num fato de sevilhana cor-de-rosa e de carita pintada a rigor, no Algarve, com uns quatro ou cinco anitos. Sorridente, é claro, mas inconsciente da tremenda maldade a que estava sujeito. Não fosse eu um indivíduo com ideias bem definidas e era até capaz de me extraviar. Livra! Pois a ideia dos Carnavais passados perde-se na bruma de outros tempos mas está muito associada a Castelo de Vide e à Carreira de Cima para onde era arrastado pela mão dos pais. Para ser sincero, lembro-me de pouco mas de uma grande confusão, de mascarados muito mal “enjorcados”, dos carrocéis e do algodão doce, das farturas e dos brinquedos nesta ou naquela barraca, do frio e da vontade de zarpar dali para fora quanto antes. Ah! e uma vez levei com um ovo disparado por um tractor qualquer mesmo em cheio no meio da testa. Sim, é capaz de ter sido por aí. Nunca fui fã daquela história.

Com a adolescência a coisa melhorou e ganhou outra graciosidade nas noites infinitas no D. Pedro V, discotecazinha mítica apinhada onde a gente era tanta que até as paredes suavam. Aí sim, ao som do Poucochinho, com amigos de longa data, alguns deles já desaparecidos (que aqui saúdo com muita saudade), dançámos noite fora e até amanhecer mas também se diga de passagem que era mais a folia que o Carnaval porque ali o calor era tanto que não havia quem aguentasse a fatiota.

Pois o Carnaval passou por mim e acho que deixámos de ligar um ao outro até ao ano passado.

Depois de assumir funções autárquicas e na triste constatação de que nada se fazia na minha terra para comemorar a data, de tanto ver as crianças e os mascarados a marcharem sozinhos a par e passo pelas ruas, de ver as gentes abalar para outros Carnavais que de não os satisfazerem os remetiam à procedência a toda a velocidade, decidi meter mãos à obra e com a ajuda de todos, digo todos mesmo, começámos a reinventar uma tradição perdida numa pequena localidade da zona e fizemos um Carnaval pequenino, de produção caseira e para consumo doméstico que acabou por resultar muito bem. Neste ano, sentámos as partes interessados, injectámos-lhe vivacidade e energia, e creio que a coisa primeiro implodiu para explodir de seguida em bailes e desfiles de mil cores que animaram toda a população e foi muito giro de se ver.

Foram 5 dias da mais pura folia, passados numa diversão que contagiou toda a comunidade de dia e de noite. Com a ajuda de muitos amigos, esta coisa da subversão carnavalesca começou a crescer em mim e quando dei por ela estava mais que imbuído pelo seu espírito se é que de facto existe. Sim, reconheço que pelo prazer de estarmos juntos, de inventarmos e confeccionarmos fatos e adereços, de nos expormos e surpreendermos, sentimos uma mágica excitação que nos fez superar e a mim, me fez também mergulhar nas suas raízes.

Existem sob a génese do Carnaval as mais diversas teorias que o relacionam com adorações realizadas no Egipto Antigo ou com os bacanais romanos embora seja consensual que a sua essência reside no "adeus à carne", no carne levare que esteve na origem do termo que hoje utilizamos. Começando logo no Dia de Reis e prolongando-se até à “Quarta-Feira de Cinzas”, primeiro dia da Quaresma no calendário cristão ocidental, que ocorre quarenta dias antes da Páscoa (sem contar os domingos), o Carnaval é o último grito de alegria, de festejos profanos antes do recolhimento pascal. O povo imortalizou este último morteiro com a celebre expressão “é Carnaval, ninguém leva a mal” porque no Carnaval tudo, a todos é permitido e este é o momento certo para extravasarmos defeitos e desesperos, desilusões e aspirações, para nos libertarmos dessa mordaça social, dessa mortalha pública em que nos vamos envolvendo ao longo das nossas vidas.

No Carnaval borrifamo-nos para status e posições, esquecemos a etiqueta e as boas maneiras e desde que não se magoe nem se ofenda directamente ninguém, podemos até interpretá-lo como a trégua em que somos verdadeiramente livres. Bem sei que assim é em teoria, como vi que do alto dos reboques se vê muita cabecinha pequenina a dizer que não, muito risinho cínico a olhar de soslaio e a cobrar em peso de ouro, muito chacal que sob o manto cobarde do anonimato esfrega as mãos sujas de consolo, mas também sei que a vida só merece ser vivida quando é vivida com paixão e desde que tenhamos a consciência tranquila e a convicção profunda de que estamos certos, bem podemos escavacar à pedrada esses telhados de vidro que todos sabemos que temos.

No Carnaval podemos ser e eu fui muito feliz. Desafiando o estabelecido, quebrando a normalidade, despertando nos outros a centelha de arrojo e irreverência que dá sabor aos nossos dias, diverti-me e hei-de estar-lhe sempre grato por isso. Nestas coisas, temos mesmo de dar o corpo ao manifesto!

Num jantar de confraternização dos meus camaradas de máscaras, alguém se lembrou de no dia seguinte, quarta-feira de cinzas, proceder ao “enterro da sardinha” e como convém nestas questões, se um diz “mata”, os outros respondem quase em uníssono “esfola”. Foi uma manhã dura de diligências para reunir todo o material, mas no final e como seria de esperar, tudo de compôs: do mais puro bricolage nasceu o falecido e respectivo caixão e não faltaram a magnífica carreta, um sacerdote de “faz-de-conta” em avançado estado de euforia etílica e as viúvas e amigos para carpir o defunto folião.

Saídos à rua na primeira hora da noite, foi delícia impagável ver tanta gente esconder-se detrás das portadas ao avistar o cortejo porque mesmo a brincar, a coisa mete respeito e o portuguesito tem medo. Tem medo de subir para não despertar invejas, tem medo de celebrar vitórias para que não lhe desejem a queda, tem medo de quebrar tabus e de ir contra o estabelecido e é por isso que eu admiro tanto o nosso Mourinho quando avança destemido de peito cheio e sem armadura em direcção às legiões de jornalistas. Se o Carnaval é a última luz antes da escuridão, a última festa antes do anoitecer quaresmal, o enterro da sardinha, do bacalhau, ou daquilo que lhe quiserem chamar é, no fundo, a grande vitória deste período e a verdadeira essência da festa: o termos a capacidade de, enquanto humanos, brincar com a nossa fragilidade, a nossa impotência, a nossa insignificância face à imensidão do Universo. O enterro do Carnaval somos nós a rirmo-nos de nós próprios e da nossa condição porque se extremarmos a questão e levarmos ao ponto mais profundo, se filosofarmos até à exaustão e pensarmos “mas afinal que raio andamos aqui a fazer”, não nos restará certamente outra coisa senão o riso.

Não sei se por ironia do destino ou outra qualquer razão mais transcendental, acabei por reencontrar escassos dias depois, um companheiro de iniciativa e amigo de toda a vida num enterro de um familiar seu muito próximo. Onde outrora houve riso havia agora dor mas nem por isso e apesar de ser bizarro, achei que estivemos alguma vez a pisar a linha vermelha que nos metem à frente à nascença. No fundo o riso, é a única arma que nos resta no meio de tanto infortúnio e tanta adversidade. Se não rir, que outra coisa fazer perante as desgraças que devastam a nossa existência?

Há dias, num viajem à capital para ver o glorioso brilhar em palcos europeus, parámos nas inevitáveis roulotes da sandes do courato sitiadas nas imediações do estádio e ali, entre uma bifana e uma imperial, falando dos antigamentes, o meu sogro, sem se aperceber disso, deu-me uma lição elementar de esperança ao recordar uma súbita paragem cardio-respiratória que quase o “arrumou” quando ainda era bem jovem. Estando entre nós duas das mãos sábias que o haveriam de devolver à vida quando já estava no Apeadeiro do outro lado, comentou-se o trágico episódio e os momentos arrepiantes de angustiante espera que se seguiram. Com a desarmante bonomia e boa disposição que lhe é característica, o João Manuel arrematou a cena com um fantástico “se morrer é assim, não custa mesmo nada! É só fechar os olhos e já está”. “Nem frio? Nem fogo? Nem anjinhas semi-desnudas a tocar harpa? Nem diabinhos de tridente?”, perguntei eu. “Nada!”respondeu ele.

E bem, meus amigos, se assim é, se no fim se fecha os olhitos e “já está” como ele diz, que nos deixem ao menos divertir-nos enquanto cá andamos porque como diz o povo “a vida são 2 dias e o Carnaval… 3!”.

Já estou deserto do que há-de vir para o ano!

quarta-feira, fevereiro 21, 2007

21º Desabafo – 21 de Fevereiro de 2007 – “Memórias da ferrovia”

Tal como a maioria dos portugueses que acompanharam na televisão o desenrolar das buscas desesperadas por sobreviventes, também eu vivi com emoção o episódio da tragédia do Tua. O aluimento de terras que lançou a carruagem numa descida vertiginosa de 60 metros, roubou a vida de três funcionários da CP, dois deles com menos de 35 anos, entrando directamente para a lista dos mais negros na história das caminhos-de-ferro portugueses.

A mim, para além da pena irreparável de saber que há vidas humanas que se perderam, famílias inteiras para sempre destroçadas, custou-me particularmente ver a automotora inanimada, caída junto às águas do rio, ferida de morte, prostrada num lânguido estertor do qual ninguém a poderá jamais salvar. Custou-me porque aquela viatura em particular, aquele comboio único em que a carruagem contém na sua estrutura a máquina que a faz deslocar, faz parte da minha vida.

Esta ligação afectiva existe desde que me lembro. Sendo nascido numa terra de comboios e maquinistas, descendente de funcionários e grande amigo de actuais efectivos, aprendi desde miúdo, a amar e a conhecer de perto o fascínio destes enormes cavalos de ferro. Ficou tudo entranhado de tal maneira que tremo sempre de saudável saudade quando oiço o inimitável som do apito do chefe da estação que coloca toda a composição em marcha. As intermináveis linhas cinzentas, verdadeiras artérias de aço por onde deslizavam as máquinas, foram palco de longas tardes de brincadeira em jogos de equilíbrio, a tentar saber qual de nós seria capaz de fazer mais metros sem ter de pôr o pé no chão. Embora na altura não fossem muitas, de vez em quando lá guardávamos uma moeda que colocávamos estrategicamente sob a linha para que a máquina se encarregasse de a devidamente espalmar. Era bonito de se ver, sim senhor. Ainda guardo algumas delas como troféus de um tempo perdido. E se tivesse que escolher os cheiros que marcaram a minha vida, o inimitável odor a querosene das travessas escuras que marcam o compasso dos carris seria certamente um deles.

Se a coisa já era forte, com a ida para Lisboa em missão universitária, virou paixão. Durante esses anos, o comboio e sobretudo a automotora, não uma como a do acidente do Tua mas uma sua prima, das mais antigas, foram o meu principal meio de locomoção e nestas coisas, de passarmos tantas horas juntos, acabámos por nos afeiçoar um ao outro.

O comboio é já por si um meio de transporte fabuloso, com inúmeras potencialidades e pouco ou nenhum inconveniente. Assim de repente, não consigo imaginar um outro meio que nos liberte da mordaça de ter que estar presos com um cinto que se diz de segurança ou com um qualquer capacete enfiado cabeça abaixo. No comboio pode-se circular, esticar as pernas, ir ao bar comer uma sandes e beber uma mini ou até ir à casa de banho quando em andamento. Certa noite de domingo, caminho da capital, em amena cavaqueira com os meus companheiros de viagem, uns polícias, outros bancários, alguns militares ou estudantes como eu, alguém se lembrou que o que vinha mesmo então a calhar era um chouriço assado e um copinho do bom tinto. As bagagens estavam mesmo ali ao lado a ouvir a conversa, todas elas bem recheadas com o comerzinho da terra que nos haveria de dar ânimo durante a semana e a coisa não se fez por menos: de uma saltou o magnífico enchido, a navalha de bolso cortou o pãozinho caseiro, outro ofereceu de vontade o tal tinto e até o assadorzinho de barro que seria oferta desejada para o chefe de serviço acabou por ser estreada antes de tempo, depois de regada pela oportuna garrafinha de álcool, utilizada para fim bem diferente do medicinal previsto inicialmente. Meus amigos, ele há coisas do arco da velha, mas esta de comer chouriços assados em pleno andamento é regalo que já ninguém me tira.

Agora que a CP pensa primeiro no retorno económico e só depois na necessidade das populações e no interesse dos seus passageiros, agora que os seus manda-chuvas aproveitam toda e qualquer desgraça para colocarem termo os ramais menos rentáveis, faço aqui a elegia deste meio de transporte de eleição e partilho convosco histórias que adensam a sua aura mística.

A automotora em que eu seguia até à Torre das Vargens ou Abrantes tinha a particularidade de colocar qualquer um a dormir em minutos. Não sei se era do calorzinho do motor ou do cheiro a gasóleo queimado mas aquele balanço gostoso que fazia lembrar o colinho de nossa mãe deitava por terra a esperança de permanecer acordado mais de dez minutos. Até dava gosto! Se algum dia as insónias me atormentarem, já sei o remédio santo.

Certa manhã de regresso a casa para o fim-de-semana, já na parte final do percurso e antes de voltar a adormecer, reparei que era mais uma vez o único passageiro. Caí no sono e acordei sobressaltado com os gritos da tripulação. Estávamos parados. Pela janela vi o maquinista e o revisor a correrem esbaforidos pela tapada fora. Ainda meio atordoado, com o coração a latejar no pescoço, dei um salto que me pôs de pé e fiz um esforço para perceber o que se passava ali. Só podia haver uma explicação: a coisa ia explodir em segundos sabe-se lá porquê e a rapaziada não se lembrou de mim, fugiu sem avisar e prontos, estava frito, ali acabava tudo. Ainda juntei forças para correr para a porta e ao voltar a olhar pela vidraça para ver o adianto dos outros fugitivos reparei que levavam sacos de plástico na mão. Sacos de plástico? Havia ali qualquer coisa que não jogava bem porque reparei então também que iam os dois a rir à gargalhada. O susto passou quando percebi que afinal não era uma fuga mas uma perseguição e o motivo eram apenas dois filhotes de perdiz mais incautos que atravessaram a linha e despertaram a cobiça alheia que já os estava mais a ver feitos em canjinha.

Recordo também a manhã de azáfama quando uma súbita avaria entre a Torre das Vargens e Abrantes colocou em risco a minha presença no exame que tinha originado a viagem. Um veio qualquer de tracção partiu e nem os esforços dos funcionários e passageiros conseguiram fazer o que fosse para remediar a coisa. Engasgada e aos soluços, parecia impossível sair dali. Depois de subirem ao poste mais próximo para pedir auxílio com recurso a um telefone móvel de mala (na altura ainda não havia telemóveis!), os funcionários começaram a colocar ao longo dos carris pequenos fulminantes de aviso com distâncias certas compassadas para que a máquina que vinha em socorro fosse avisada atempadamente. Enquanto esperávamos, continuaram os trabalhos de recuperação que foram surpreendentemente satisfatórios. Afinal a coisa já mexia mas o tempo era escasso. Reiniciamos a marcha depois de informada a central e arrancámos ao som das palmas da assistência mas se queríamos apanhar o Intercidades a tempo em Abrantes teríamos que iniciar o contra-relógio sem mais. E foi assim, entre soluços e estalidos que prosseguimos viajem numa epopeia a fazer lembrar uma caravana do velho Oeste em pleno ataque dos nativos. Delicioso!

São pequenas histórias de um meio de transporte nobre e que é parte da nossa memória, um meio seguro mas de baixa auto-estima nestes tempos de automóveis, um meio que é preciso elogiar, recuperar e enaltecer.

Se nunca teve oportunidade ou já se esqueceu como é, aproveite um dia destes e faça uma pequena viajem de comboio pelo prazer de descobrir ou apenas para matar saudades. Vai ver que bom que é ver o filme da paisagem passar entre os quadradinhos das janelas. Bom passeio!

quarta-feira, fevereiro 14, 2007

20º Desabafo – 14 de Fevereiro de 2007 – “Grandes Portugueses”

O acto de elogiar alguém encerra em si riscos óbvios por ser sempre uma faca de dois gumes: se por um lado pode ter o imenso poder de galvanizar, de recompensar, de estimular; por outro pode conduzir ao amorfo conformismo e em última instância, à redutora normalização.


Sabendo de olhos fechados esta cantiga, os portuguesitos são peritos em não cair na tentação de elogiar aquilo ou aquele que seja que ainda tenha a capacidade de se mexer e respirar. O português apurou e cultivou durante anos a magnânime técnica de parabenizar apenas aquele que já não pode retribuir o elogio em agradecimento. Faz parte do melhor código de conduta lusa apenas dizer bem de alguém depois de morto e devidamente arrefecido, sete palmos e meio debaixo de terra. Estando um a fazer tijolo nunca se poderá superar, nunca poderá dali passar, nunca mais nos poderá reduzir.

Já todos ouviram histórias deliciosas como a do crápula, do bêbado, mulherengo, salafrário, devedor, esbanjador, irresponsável incorrigível que sendo atropelado em último estado de embriaguez à porta da mais sórdida das tabernas por um camião do lixo mais madrugador, que se transforma num ápice, enquanto o enfiam na mortalha mais à mão, na boca daqueles que o cruxificavam horas antes e por entre lágrimas de crocodilo, num extremado paizinho de família, num companheiro como ninguém viu, num amigo dos seus filhinhos, num pobre diabo a quem a maldita da vida nunca sorriu. “Já lá está, na terra da verdade! Que Deus Nosso Senhor o conserve muitos anos sem nós!”

No fundo não é nada demais, é apenas uma questão de cautela. É uma espécie de versão da velha máxima “não cuspas para o ar que te pode cair em cima” adaptada a uma versão mais simpática do género “não caias na tentação de elogiar aqueles que um dia na tua frente se poderão atravessar”.

Muito poucas excepções contrariaram esta tendência nos últimos anos. Talvez deva destacar a bizarra homenagem caseira que Jorge Sampaio prestou a um Mário Cesariny já em avançado estado de combustão mas ainda a planar numa brilhante lucidez revolucionária. O rapaz Sampaio soube bem escolher os seus braços direitos e procurou colmatar nos apoios imediatos as visíveis fraquezas que deixava transparecer. Soube dar ouvidos a quem melhor lhe segredou mas não deixou de ser caricato ver o Presidente da nossa República, aquele que é em teoria o garante maior da nossa soberania, prestar homenagem a uma das mentes mais loucas, transversais e visionárias do século XX português. Foi no mínimo estranho e irónico ver o símbolo máximo da nossa autoridade curvar-se perante um dos maiores porta-estandartes da subversão e da recusa que recorreu a todas as formas de arte que tinha à mão, incluindo a própria vida, para confundir e incendiar as mentes dos que os rodeavam. Mas ao menos foi a tempo.

Pois eu digo que os tempos que correm também não estão para grandes elogios. Cada um vive para si, estando todos fechados nas prisões a que chamam casas, dependentes das mordomias sem as quais já não sabem ser ninguém e aquilo que os outros fazem ou possam vir a fazer, de nada altera o rumo das coisas.

Mas a mim, hoje e aqui dá-me vontade de elogiar exemplos de pessoas que aplaudo e me suscitam respeito e admiração.

O Daniel Roldão deve ser da minha idade. Trinta e poucos, não mais. Cruzámo-nos inúmeras vezes no Liceu de Portalegre onde ambos estudámos e até chegámos a partilhar amigos mas vá-se lá saber porquê, nunca chegámos à fala. Creio que nunca devemos ter ido além de um cumprimento circunstancial mais distante. Calhou, como se costuma dizer. Com o passar dos anos, esqueci-me que ele existia e descobri recentemente o segredo do seu sucesso na muita imprensa escrita que faço questão de triturar. Sendo zootécnico de profissão, o Daniel descobriu na sua vocação empresarial, não direi a galinha dos ovos de ouro mas mais propriamente a galinha dos rebuçados de ovo de ouro. Ao criar a empresa “Sabores de Santa Clara” recuperou juntamente com a sua oficial de cozinha, Teresa Gonçalves, o saber fazer do divino conhecimento das monjas dos conventos da cidade e ao aumentar o tempo de validade dos rebuçados sem alterar a sua receita original, projectou um dos ex-libris da doçaria do mosteiro, as já famosas bolinhas douradas de alegria. Sendo grande nas lojas gourmet de todo o país, produzindo 2.500 rebuçados diários com recurso à mão-de-obra de apenas quatro funcionárias, tem agora as baterias apontadas para os aliciantes mercados internacionais, enquanto magica em segredo novas embalagens e as mais diversas formas de chegar aos públicos-alvo. Disse em entrevista que “queremos estar presentes nos momentos importantes das vidas das pessoas” e só por aqui já fico com a barriguita consolada de tanta capacidade e sentido de oportunidade. Perante esta verdadeira jogada de mestre, mais vale tirar a mão da testa e deixar-se de lamúrias que o caso é mais para bater palmas. Em frente, Daniel!

Também o António Costa que eu conheci no seu stand da Feira da Castanha de há dois anos, me surpreendeu há dias nas páginas de um semanário onde contava a sua história. De facto e agora que penso nisso, constato que a sua amabilidade e o seu modo de expressão o denunciavam dos restantes e deixavam pressupor um passado rebuscado que só agora confirmei. Tendo tido um passado comercial na banca, tendo sido um quadro de destaque de um grande banco português e inclusive chegado a director comercial de uma importante seguradora, mandou tudo às urtigas quando descobriu que na flor da idade, vivia uma vida que não era a sua e partiu para Manteigas onde ajudou a desenvolver a empresa Ecolã que produz mantas, cachecóis e tapetes, roupas e artigos personalizados para hotelaria, sempre com o maior respeito pelos processos e padrões tradicionais. Processando 15 toneladas de lã anuais, esta unidade fabril que emprega oito efectivos do sector que se encontravam no desemprego, produz por ano 16 mil peças que encantam já o país e toda a Europa somando vitórias como a última obtida em Dezembro, em Milão, na maior feira internacional de artesanato do mundo, onde foi considerada pelo diário Il Giornale, como a melhor dos 2.500 stands presentes.

Casos não muito diferentes do de Pedro Freire que fugiu da cómoda secretária da capital onde apodrecia no seu fato e gravata, para Seia onde hoje produz o queijo certificado de São Gião. O gestor de 30 anos, aboliu assim uma escravatura na capital que o amordaçava para se libertar nas cercanias da serra onde transforma por ano 75 mil litros de leite em cerca de 16 mil queijos que vende para a Irlanda, França, Inglaterra, Angola, Brasil e Noruega, estando já de olhos postos nos Estados Unidos. Tendo arrebatado diversas medalhas de ouro e prata em Prémios Mundiais de Queijo, já foi inclusive elogiado pela Rainha da Noruega que se perdeu de amores pelo seu “Serra da Estrela Velho”.

Casos de jovens que ousaram desafiar o destino e dizer não de vez.

Casos de pequenos grandes heróis das suas vidas e de brilhantes referências nas nossas que souberam tornear a oblíqua obrigação para abraçarem a enorme felicidade que é viverem a vida que querem.

Casos, meus amigos, que nos podem fazer sonhar e até quem sabe, soltar as nossas próprias amarras e abrir caminho face ao desconhecido.

terça-feira, fevereiro 06, 2007

19º Desabafo – 7 de Fevereiro de 2007 – “O Amor em castelhano”


A primeira hora da manhã é sempre um desafio pessoal particularmente difícil, sobretudo nesta altura dos frios. Apesar de adorar madrugar e de achar que só quem tem a coragem de se adiantar a todos os outros que ainda rebolam de gozo no tépido conforto dos lençóis, poderá auspiciar a agarrar o dia com as duas mãos, tenho de confessar que sou uma máquina de combustão lenta ao acordar. Digamos que o meu processador tem extrema dificuldade em fazer restart. Não sou definitivamente um daqueles felizardos que saltam da cama ao primeiro bocejo do galo mais madrugador, já com o fato de treino vestido e com a disposição das meninas da secção de lingerie da Redoute estampada no rosto. Bem queria! Mas de nada valeram as intensas negociações que fiz comigo mesmo, tentando convencer-me das inúmeras virtudes da corridinha matinal, se porventura despertasse mais cedo. Acabo sempre derrotado, a suplicar ao botãozinho vermelho do despertador, um prolongamento de mais dez minutinhos antes da azáfama que se repete inexoravelmente dia-a-dia. Mal colocamos o pé no chão, sabem como é, uma correria entre as divisões da casa, uma luta frenética com os ponteiros, para ver quem chega primeiro à primeira de todas as metas.
Num desses dias da semana passada, enquanto terminava uma torrada apressada e aproveitava a trégua dada pela mais pequena da família enquanto lavava os dentes, aproveitei para saltar do canal 2, o inevitável canal 2, para as notícias da RTP1.

As grandes manchetes do dia já tinham passado em antena e o pivot anunciou, já em jeito de variedades, a realização na véspera do primeiro casamento gay mexicano.

Ao ouvir isto, enquanto acabava de barrar a manteiga num recarga e me preparava para começar a arrumar o “estojo”, sem sequer olhar para o ecrã, o meu cérebro deu um pontapé na caixinha adormecida do preconceito e comecei desde logo a imaginar dois gringos de sombreros cor-de-rosa e florinhas nos bigodes, de maõzinha descaída no ar, de mantilha com as cores do arco íris ao ombro, a desfilarem no alto de um semi-reboque pela avenida fora. Quando me virei para ver as imagens, surpreendi-me e quase me envergonhei em silêncio. Afinal, eram duas mulheres e as imagens não tinham nada de bizarro, antes pelo contrário. Não pude deixar de reparar que no momento do sim, em frente à congressista, suspiraram em uníssono, com uma sincronia inatingível se não fosse natural, mesmo que tivessem ensaiado mil vezes. Foi um suspiro que veio de dentro, de extremo alívio e felicidade, a que se seguiu um sorriso olhos nos olhos, daqueles a que nem o coração mais empedernido fica imune.

Karina Almaguer e Karla Lopez, de 25 e 30 anos, viajaram para Saltillo, que eu já conhecia pela má memória da rebelião da selecção portuguesa durante o Mundial de 86, no Estado de Cohauila, para selarem oficialmente a sua união, dando assim pela primeira vez uso à lei aprovada em 11 de Janeiro último, que conferiu a este Estado de dois milhões de habitantes, a particularidade de ser o único dos 31 que compõe os Estados Unidos Mexicanos, a ter a graça de poder unir perante a lei dois seres do mesmo sexo.

Eram duas belas mexicanas, sim senhor, uma de jeito bem mais masculino, cabelinho com gel puxado para trás, casaquinho de cabedal, outra mais rechonchudinha e efeminada, com três pneuzinhos entre a última costela e o osso da bacia, a fazer lembrar as Vénus, as Deusas-mãe do Paleolítico. Tremendamente felizes e sobretudo, aliviadas.

Andei com aquele sorriso a dar voltas na minha cabeça e agradeci em silêncio a energia positiva que o enlace me deu durante o dia. Até parecia que tinha saído do “copo de água”.

Reconheci, falando comigo, que este foi provavelmente um dos assuntos em que durante a minha vida senti uma mais clara viragem de opinião. Como todas as outras crianças da minha aldeia, nasci, ou cresci ou fizeram-me ser um homofóbico acérrimo. Homens só com mulheres e vice-versa. Nada de invenções que isso não é cá para nós! Aprendi, no conservadorismo alentejano potenciado com as mais profundas convicções católicas, a condenar a diferença, a apontar o dedo acusador aos que “não eram normais”, a denunciar as aberrações da natureza. Como se fosse alguma vez possível, homens e mulheres escolherem amar os seus iguais, em vez das partes que os complementam. Quando éramos miúdos dizíamos em segredo no pátio da escola que a Ana Zanatti vivia com a Lara Li, consagrando um boato dos anos oitenta que se transformou em mito urbano. Ainda me lembro quando a última foi estrela de uma festinha de Verão da Ranginha, em pleno concelho de Marvão, e de a estar a observar como se fosse um pássaro raro. Acho que ela não reparou. Devia estar habituada…

Ao longo da adolescência, já na idade adulta e sem saber, dei por mim a maravilhar-me com obras da literatura, da pintura, do cinema produzidas pela rara sensibilidade de aqueles e aquelas que um dia abominei e achei sinceramente que não havia nenhum crime nisso. Há de facto uma grande diferença entre aqueles que usam a sua sexualidade para chocar tudo o que os rodeia, pelo puro prazer de provocar e aqueles que na intimidade da sua diferença, optam por conduzir a sua vida pelo trilho por onde pensam que poderão ser mais felizes, com discrição e sobriedade.

Não é novidade para ninguém que a homosexualidade é cada vez mais aceite em termos sociais e tem ganho terreno declarado no nosso mundo ocidental. Na televisão, na publicidade e até na própria orientação política, tem sido um segmento cada vez mais levado em linha de conta e parece-me que já não olhamos para ele com o estigma de outros tempos. Seria alguma vez possível há dez anos, haver um programa em horário nobre na televisão, como aconteceu há tempos na SIC, em que um grupo de homossexuais se dispunha a mudar o visual de um concorrente? Aposto que seria cancelado logo no episódio piloto por falta de participantes. Quem é que quereria ser o bobo da corte?

Lembro agora que a chave para a resolusão deste suposto problema reside numa simples palavra que me tomou de surpresa quando cheguei à composição escrita da Prova Geral de Acesso. “Disserte sobre a tolerância”. “A tolerância? Mas que raio! Esta agora!” E lá fui meio cambaleante por ali fora dando-lhe conforme podia que o tempo era curto e a conversa tinha de ser preciosa. A julgar pela nota, não me devo ter safado mal, mas ainda hoje, a tolerância que me tem acompanhado nos meus pensamentos, é para mim cada vez mais a chave da felicidade da nossa sociedade e a única e verdadeira via para se ser feliz. O dicionário define-a como a “atitude de admitir a outrem uma maneira de pensar ou agir diferente da adoptada por si mesmo; acto de não exigir ou interditar, mesmo podendo fazê-lo”. Será porventura uma bela oportunidade de recordar a velha máxima que diz que “a nossa liberdade termina quando começa a liberdade dos outros”

“Et voilá!”, o segredo do sucesso ou aquilo que realmente nos faz falta nas redomas de vidro onde vivemos.

Afinal, aquele sorriso cúmplice mexicano que me surpreendeu no noticiário da manhã, era o de uma vitória que há muito aquelas almas sonharam, e da certeza que no futuro teriam a garantia de poder viver a sua diversidade em liberdade à luz da legalidade.

Se pensarem bem, o que é que nós temos a perder ou ganhar com isso?

Se em vez de olharmos para eles como pretos, judeus, maricas, comunas, fascitas, infiéis ou mentirosos e os tomarmos como nossos iguais, no fundo como seres que tal como todos nós querem apenas ser felizes, o mundo seria um lugar bem melhor para viver.

E já agora, que se afunilam as trincheiras e se aproxima o dia 11, dentro da nossa maravilhosa diversidade e seja qual for o resultado da votação, já digo como o outro, “talvez valesse a pena pensar nisto”.