Desabafos de Marvão

O convite de um amigo para desabafar na Rádio Portalegre, todas as quartas, às 7.30h, 10.30h, 13.30h, 17.30h, 23.30h, levou-me também a criar um espaço, na blogosfera, onde possam ficar registados os textos da versão radiofónica. Espero que gostem e já agora, se não for pedir muito, que vos dê que pensar. Um abraço...

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Um rapazinho de Marvão

quarta-feira, abril 04, 2007

27º Desabafo – 4 de Abril de 2007 – “Serviço de Urgências”




É usual ouvir-se dizer que para um homem se sentir realizado é preciso plantar uma árvore, escrever um livro e fazer um filho. Das três façanhas, a mim, basta-me a última. Ter um filho é a empreitada maior que alguém pode esperar nesta encarnação. Quando concebido em consciência e plenitude, um filho é algo muito maior que a própria vida. Um conhecido cantor americano cá das minhas preferências, pai depois de uma longa e conturbada existência, escreveu uma canção em que dizia que um filho é o princípio de uma grande aventura. Ter um filho é passar a viver em mais do que um corpo. Nos filhos prolongamos a nossa própria existência, nos filhos ultrapassamo-nos, projectamo-nos no tempo e no espaço, vencemos a própria morte ao perpetuarmos a nossa memória… por sermos vivos enquanto recordados. Ao termos filhos nunca mais descansamos completamente, passamos a ter dois corações, duas maneiras de pensar e nunca estaremos completamente felizes se eles não estiverem também. Depois dos idílicos primeiros tempos, entramos na longa gestação da sua própria personalidade, enfrentamos birras e privações, insónias e tentações, deixamos, definitivamente, de pensarmos só em nós para passarmos, para sempre, a pensar primeiro naqueles que são o nosso mais que tudo.

Mas vivemos tempos difíceis, tempos estranhos estes em que muito, muito cedo, cedo demais os separamos de nós. Antigamente e não há muito tempo, o convívio entre as famílias e a proximidade de todos os seus membros era o grande gerador de felicidade caseira. Hoje trabalhamos que nem cães para podermos pagar a quem faz o serviço que deveríamos ser nós gratuitamente a fazer. Desmultiplicamo-nos em brinquedos e atenções, em vestidinhos e ilusões quando no fundo às vezes o que nos pedem com um olhar que não vemos é um mimo e um pouco de atenção. Começam cedo demais a seguir o seu percurso e por muito próximos que estejamos, nunca estamos suficientemente próximos para saber tudo. Por vezes, só quando a ameaça paira e o perigo espreita, só quando o azar nos bate à porta é que sentimos verdadeiramente o importantes que são para nós.

E a última Quinta-feira tinha realmente tudo para ser mais um dia normal de trabalho em que nos separamos à porta da escolinha para nos voltarmos a avistar bem no fim já noite dentro. A reunião da meia manhã foi interrompida com o telefonema assustado da auxiliar que ligava do Parque Infantil de Castelo de Vide para onde se tinham deslocado num passeio de férias da Páscoa. A Leonor tinha caído desamparada do alto de uma estrutura de dois metros e estava muito chorosa e queixosa das costas. Tinham seguido para o Centro de Saúde e nós fomos na sua peugada. Com a adrenalina a “bombar” nas artérias e com mil cenários angustiantes a martelar na cabeça voei o mais rápido que pude e encontrámo-la lavada em lágrimas, a contorcer-se com dores na marquesa. Depois de uns absurdos e incompreensíveis 20 minutos à espera de um médico que fizesse uma primeira triagem e após as infrutíferas tentativas de chegar à fala com alguém responsável (ainda hoje estou por descobrir onde é que estiveram metidos) acabei por minha conta e risco por arrancá-la dali o mais depressa possível e levá-la para Portalegre, na esperança de melhor sorte. É de facto a maior das vergonhas tanto laxismo e tanto “deixa andar” mas nem mesmo por se tratar de uma criança e de uma questão de aparente cuidado puderam perder um instante do seu precioso tempo para reencaminhar o caso. E mesmo assim não me livrei de um comentário infeliz de um dos de serviço que só não mereceu resposta mais personalizada por ter manifestamente coisas mais importantes que tratar então, como a urgência me levou também a não deixar o testemunho no Livro das Reclamações que era certamente o que de melhor tinha feito porque episódio destes, como eu costumo dizer, só dão vontade de passar à luta armada.

Em Portalegre o atendimento foi, desta vez, exemplar. Enfermeira simpática e de pronto serviço, pediatra atenciosa e dedicada e o inevitável Raio X que por muito que se explicasse que não doía era motivo para mais uma investida de novo pranto. As dores eram mais que muitas e tentar sentá-la ou pô-la de pé era impensável. Foi grande o alívio por não haver fractura declarada mas ainda assim carecia do olho clínico do ortopedista. O de serviço era de aparência uma mistura entre o José Carlos Malato e o Fernando Pereira. Meia-idade, barbinha desenhada a régua e esquadro, cabelinho à moderna com uns toques de gel, ar bonacheirão e bem disposto teve, apesar de não estar especialmente vocacionado para atender crianças, um comportamento digno de compêndio. Confiante e bem falante, adaptou o discurso e uma descrição técnica ao nível da paciente para que percebesse tudo e deu magistral aula de bem saber fazer. Aconselhou-a a muitas sestas, repouso, massagens e tardes deitada no sofá a ver desenhos animados e a comer guloseimas de Páscoa. Escusado será dizer que o choro deu rápido lugar a um sorriso de orelha a orelha perante tão auspicioso prognóstico. A simpatia foi tanta que o Doutor chegou ao pormenor de lhe recomendar uns bébézinhos de licor muito bons como os que a sua mãe lhe costumava comprar quando era pequenino. Depois da receita aviada e das despedidas formais não é que no carro me lembrei que tinha visto há dias os bons dos bombons numa das prateleiras do Modelo? Não foi cedo nem foi tarde, tirei de seguida para o mais próximo e lá comprei duas caixinhas de bombons de licor, deliciosos por sinal! uma de bebés e outra de legumes. Pedi à menina para embrulhar e colei cartãozinho pessoal a desejar as maiores felicidades, boas Páscoas e a ofertar os meus humildes préstimos para se um dia lhe puder ser tão útil como ele me foi a mim nesse mesmo. Depois da converseta com o segurança, lá entrei assim meio à socapa e esperei no corredor. O senhor Doutor estava a acabar de almoçar, disse a menina do fatinho verde. Surpreendido por me ver de regresso e ainda mais quando viu o presente, imaginem então (e é aqui que é pena a rádio não dar para ver) o sorriso do homem e o seu ar de incrédulo quando contemplou os mesmos bombons que a mamã lhe costumava comprar ali mesmo à sua frente. Anda balbuciou um “que detalhe! Esta é daquelas que tocam fundo” e deixei-o feliz porque também assim fiquei e como é tão melhor quando tudo corre bem.

Ainda assim, apesar da medicina convencional já nada mais ter para dizer, e aparentemente estar tudo em vias de ficar normalizado, é claro que não descurei o cuidado e rumei caminho de Alter para visita ao inevitável Ti Chico apesar do risco acrescido de já passar do meio-dia. Este sim que bem merecia uma estátua ou uma rotunda ou um título nobiliário qualquer. Dos três estabelecimentos de saúde que frequentei durante o dia este ainda foi onde estive mais tempo à espera mas também foi onde fui mais bem servido. Naquela meia hora já faziam fila o Peugeot com os velhinhos espanhóis e o Golf branco com o casalinho de namorados e era regalo vê-los entrar todos amolgados e saírem direitinhos e mais fresquinhos que os acabados de sair da fábrica.

Assim que as mãos sábias pousaram nas costinhas brancas da pequena Leonor, como se tivessem um TAC na ponta dos dedos, emitiram de pronto o diagnóstico que não era de todo favorável. As duas vértebras deslocadas não voltariam ao seu lugar original sem um valente apertão que provavelmente iria fazer doer de novo. Estranhamente e ainda se está para saber se por já ter passado tanto nesse dia, a coisa correu às mil maravilhas e até o bom do Ti Chico se admirou de tamanha facilidade.

Pois se é obrigatório o tal Livro das Reclamações que bem aqui ficava um de elogios porque este homem, de tanto bem ter feito a tanta gente, bem merecia também uma distinção de bom serviço à Comunidade, porque o seu bocadinho de Céu já o tem mais que garantido. Bem Haja, bom homem! E até daqui a… espero eu, muito tempo!