Desabafos de Marvão

O convite de um amigo para desabafar na Rádio Portalegre, todas as quartas, às 7.30h, 10.30h, 13.30h, 17.30h, 23.30h, levou-me também a criar um espaço, na blogosfera, onde possam ficar registados os textos da versão radiofónica. Espero que gostem e já agora, se não for pedir muito, que vos dê que pensar. Um abraço...

A minha fotografia
Nome:
Localização: Marvão, Alentejo, Portugal

Um rapazinho de Marvão

terça-feira, maio 08, 2007

32º Desabafo – 9 de Maio de 2007 - Viagem da Madeira, passando pelo horror algarvio e de bicicleta para o CAEP


A estas horas, Alberto João Jardim deve estar a rebolar-se de gozo em júbilo absoluto, fazendo caretas aos do “contenente”, como ele gosta de nos chamar, brindando de tacinha na mão, rindo-se da nossa carita de parvos. Enquanto o governo cá do sítio nos impinge congelamentos de carreiras e sacrifícios redobrados num esforço suplementar para atingir metas e parâmetros que não nos envergonhem perante os nosso parceiros europeus, o dono e senhor dos reinos da Madeira grita, de barriga de fora e de olhos esbugalhados, em cada inauguração que amealha, que lhe reforcem a mesada para que a obra e o desenvolvimento para os seus seja cada vez mais e melhor.

Assistimos assim impávidos e serenos, todos nós, desde a mais alta figura de Estado ao mais débil contribuinte, à constante onda de insultos e provocações, pagando e calando, com a passividade do caixa de óculos da turma que entrega os seus melhores berlindes de mão beijada ao gordo desdentado do ano a seguir. O homem deu-se ao luxo de se despedir para regressar e voltar a tomar conta do galinheiro perante a passividade geral, brincando com estatísticas e votações, embaralhando e voltando a dar com a certeza de quem sabe que os trunfos lhe voltarão a sair em mão.

E o que mais me impressiona no meio desta história toda é que na Madeira não vivem só as pessoas de baixos recursos que vemos eufóricas nas desbundas etílicas em que se transformam geralmente as suas campanhas e os seus comícios. Na Madeira vivem também muitas pessoas informadas e preocupadas, muitas pessoas que acompanham o processo de perto e que só podem ser coniventes com a situação porque o motivo que têm é muito forte e não pode ser outro que não o preço do progresso. Para obter aquelas percentagens, deve haver muito boa gente que faz figura de mulher traída e finge não saber de nada para poder manter a ostentação e o luxo, esquecendo que partilha a cama com quem a trai, aguentando estoicamente o ogre obsoleto que dirige os seus destinos.

Todos sabemos que por detrás daquele Carnaval mediático, há muito envelope e muito compadrio, muita conivência e muito jogo duplo. Políticos e empresários de provas dadas na nossa praça, que o criticam e repudiam nos ciclos mais íntimos de amigos, curvam-se com subserviência perante a eminência parda, quando o bailinho lhe agrada e os ajuda a engordar os extractos. Meus amigos, os parvos pedem a Deus que os leve! O mundo é mesmo assim e está bom é para estes que se sabem desenrascar. Isto não são tempos para éticas e etiquetas. Em tempo de guerra não se limpam armas e como dizia o velhinho: “os que sobrevivem não são ao mais espertos, mas sim os que melhor se sabem adaptar às situações”. Toma lá que é democrático!

Cá pela península, o drama da pequenita Madeleine McCann, roubada do seu leito familiar por mãos malévolas enquanto dormia, enche-nos de horror. Não acredito que haja alguém no mundo que seja pai ou mãe e não suspire bem no fundo do coração cada vez que houve uma história assim, ao imaginar por cruéis fracções de segundo que o desaparecido poderia ser o seu ou a sua. Não deve haver nada mais doloroso que ver partir um filho na frente ou saber que se perdeu para sempre.

Mas quem foi o pai ou a mãe que num dia qualquer de mais movimento ou mais confusão não sentiu, por milésimas de segundo que fosse, a terrível angústia de não os ver por momentos? Quando num centro comercial, num espectáculo, numa piscina ou romaria, de vez em quando lá vem aquele aperto mitral, aquela dor tão funda de não a ver, de sentir ter sido fintado pela sua vertiginosa rapidez natural e espontaneidade. Mas o sentimento de alívio que se segue quando o olhar os localiza, tranquiliza-nos e faz-nos sempre esquecer como foi, porque na verdade, é impossível estar sempre perto.

Comentei há dias as palavras de um notável pedagogo espanhol de visita ao nosso país para apresentar o seu último trabalho. Dizia ele aos micros da rádio em jeito de conselho final que “não tentem ser uns pais perfeitos. Deve ser terrivelmente entediante”. E nós sabemos que à medida que eles aprendem a crescer, nós aprendemos a educá-los. É um processo bilateral que decorre em paralelo e onde acertamos sempre por tentativas e erros. Bem sei que muitos apontam já neste caso, o dedo acusador aos progenitores por terem deixado os rebentos a sós. Confesso que não sou capaz de o fazer. Provavelmente não os deixaria assim, mas tampouco sou capaz de lhe apontar seja o que for. Estavam próximos, tinham contacto visual com a entrada, vigiavam-nos visualmente de meia em meia hora, não se pode dizer na verdade que tivessem sido displicentes mas sim presas fáceis para um lobo vestido com a pele de cordeiro. Não tenho a pretensão de ser inspector da Pêjota e longe de mim querer ser dono da verdade, mas estes olhinhos que a terra há-de comer já passaram centenas de horas colados ao ecrã, seguindo policiais e séries do género. Na minha cabeça e no cinema, já aprendi também a apanhar muito malandro e fascina-me o poder entrar na sua mente para saber como pensam. Nunca mais me esqueço da grande certeza que fundamenta o edifício do ex-libris do género, pelo qual sou tão apaixonado. Se bem se recordam, no “Silêncio dos Inocentes” de Jonathan Demme, a agente Clarice Starling era ajudada por um psicopata que lhe deu a pista-chave para capturar o assassino do momento: “ele quer aquilo que cobiça e só se pode cobiçar aquilo que se vê”. Cá para mim, a solução pode muito bem ir por aqui. A forma como o crime foi posto em prática revela um conhecimento profundo dos hábitos da família; a quase total ausência de pistas denota uma apurada planificação e uma actuação metódica; a escolha de apenas um dos três filhos revela que o desejo mandou mais que o dinheiro, que o alvo do rapto estava já previamente definido. Palpita-me que o cérebro, se não também o executante, pode bem ser conterrâneo dos visados. Resta-nos apenas desejar que fosse quem fosse, que seja apanhado a tempo e horas de a salvar.

Duas notas finais para o distrito. A primeira, a pedido de muitas famílias, para felicitar os Ases do Pedal por mais uma excelente maratona, num fim-de-semana que invadiu Portalegre de bicicletas e desportistas e nos colocou bem no centro das atenções de todo o país. Quase cinco mil participantes numa das maiores provas do género realizadas no continente europeu, feita quase exclusivamente por amadores e amantes da modalidade. Coisa rara nos dias que correm, afinal ainda há associativismo para quem acredita. Organização apurada e milimétrica de orgulhar todo o distrito. Um abraço muito especial para o meu amigo Vilela e para a sua rapaziada, sempre bem disposta e cooperante onde quer que vá, fomentando amizades e boa onda. Um chapada de luva branca no pretensiosismo de muitos passarões nacionais que se dizem profissionais na organização de eventos, provando que vale mesmo sempre a pena quando a alma não é pequena e que grande é a paixão desta malta!

Outra nota altamente positiva para o nosso Centro de Artes do Espectáculo, para a Câmara de Portalegre, para o vereador Polainas e sobretudo para o grande Joaquim Ribeiro, tantas vezes escondido na sombra da sua nobre timidez e profissionalismo, mas sempre ao mais alto nível numa programação digna de capital. Ainda há poucos dias ali me arrepiei com esse enorme Camané que provou a uma sala cheia, por A+B, que os homens podem ser gigantes de tamanho sendo pequenos de altura; e já agora me deleito entusiasmado ao sorver a informação dos cartazes do que vem a seguir: grande teatro, grandes concertos, grandes espectáculos! Os novos valores e os talentos consagrados, a fina flor da fruta em termos de produções nacionais e internacionais, la créme de la créme mesmo à mão de semear. Bem hajam e que nunca baixem a guarda porque nós vamos ficar redondinhos de tanta fartura e vamos sempre querer mais!